O texto seguinte servirá de base para responder à questão.
Vacinas inversas: esperança contra doenças
autoimunes
Muitas vacinas simulam uma infecção natural e
estimulam o sistema imunitário a gerar as respostas
necessárias para evitar a infecção por agentes
patogênicos de tipo selvagem e, possivelmente, a
ocorrência de doenças. Nesse processo, alguns
componentes do patógeno invasor são reconhecidos
como estranhos e marcados para eliminação e/ou
processamento por mecanismos específicos, que
permitem o desenvolvimento de uma resposta imune de
memória de longa duração e eficaz, que protegerá contra
novas infecções no futuro.
No entanto, surpreendentemente, o sistema imunitário
também pode atacar células, tecidos e órgãos saudáveis
do próprio hospedeiro, processo este conhecido como
autoimunidade, que resulta em uma variedade de
patogenias. Estima-se que 7% da população mundial
viva com algum tipo de autoimunidade. Mas como fazer
para frear esse ataque do sistema imunitário ao próprio
organismo em indivíduos com doenças autoimunes em
curso? Existem mecanismos comuns relacionados à
geração de respostas autoimunes dirigidas a diferentes
órgãos, tecidos e células?
A resposta para essas perguntas pode estar em uma
nova estratégia de desenvolvimento de vacinas,
concebida por Andrew Tremain e colaboradores e
publicada em setembro de 2023 na Nature Biomedical
Engineering . Trata-se de uma vacina inversa. Ou seja,
em vez de gerar uma memória de longo prazo que vai
estimular uma resposta imunitária robusta a partir do
reconhecimento de componentes de um patógeno
invasor − como acontece com as vacinas tradicionais −,
ela remove a memória do sistema imunitário em relação
a uma molécula de proteína do próprio corpo que é
incorretamente reconhecida como estranha por células
de defesa (linfócitos T).
Para criar a vacina, a equipe acoplou a molécula
N-acetilgalactosamina (pGal) a proteínas (chamadas de
antígenos) responsáveis por provocar a reação do
sistema imunitário contra determinados órgãos, tecidos
ou células do próprio corpo. A molécula pGal marca
essas proteínas e sinaliza que elas não devem ser
identificadas como estranhas ao organismo, gerando
tolerância imunológica específica.
Existem diferentes antígenos associados às doenças
autoimunes. Por exemplo, na esclerose múltipla −
doença autoimune que afeta o sistema nervoso −, os
linfócitos T reagem à mielina, que forma a camada
proteica protetora que fica ao redor dos nervos. Já no
caso da doença de Crohn, as células T têm como alvo a
parte inferior do intestino delgado. A ideia é que a
molécula pGal possa ser ligada a qualquer proteína
antigênica do corpo para direcionar o sistema
imunológico a tolerá-la, atenuando ou eliminando a
resposta imune contra essa proteína.
Em estudos com modelos experimentais (ratos e
macacos), os pesquisadores demonstraram que as
vacinas inversas poderiam efetivamente interromper a
reação autoimune associada a uma doença semelhante
à esclerose múltipla, atestando que doenças autoimunes
em curso poderiam ser reduzidas e/ou curadas após
imunização com vacina inversa.
É importante destacar que um ensaio inicial de fase I,
para avaliar a segurança da abordagem da vacina
inversa, já foi realizado em pessoas com doença celíaca,
e outros ensaios de segurança em humanos com
esclerose múltipla estão em andamento, todos com o
apoio da empresa farmacêutica Anokion S/A.
Espera-se que a vacina inversa seja mais eficaz no
tratamento das doenças autoimunes do que os métodos
usados hoje em dia, que são principalmente
direcionados para enfraquecer o sistema imunitário e
restringir a resposta imunológica, deixando os pacientes
suscetíveis a infecções e efeitos colaterais.
Retirado e adaptado de: GALLER, Ricardo. Vacinas inversas:
esperança contra doenças autoimunes. Ciência hoje.
Disponível em:
https://cienciahoje.org.br/artigo/vacinas-inversas-esperanca-contra-doe
ncas-autoimunes/ Acesso em: 12 mar., 2024.