Hoje não escrevo
Chega um dia de falta de assunto. Ou, mais propriamente, de falta de apetite para os milhares de
assuntos.
Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos. Os dedos sobre o teclado, as letras
se reunindo com maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto
lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza, inclusive a simples
claridade da hora, vedada a você, que está de olho na maquininha. O mundo deixa de ser realidade quente
para se reduzir a marginália, purê de palavras, reflexos no espelho (infiel) do dicionário.
O que você perde em viver, escrevinhando sobre a vida. Não apenas o sol, mas tudo que ele ilumina.
[...]
E então vem o tédio. De Senhor dos Assuntos, passar a espectador enfastiado de espetáculo. Tantos
fatos simultâneos e entrechocantes, o absurdo promovido a regra de jogo, excesso de vibração, dificuldade
em abranger a cena com o simples par de olhos e uma fatigada atenção. Tudo se repete na linha do
imprevisto, pois ao imprevisto sucede outro, num mecanismo de monotonia explosiva. Na hora ingrata de
escrever, como optar entre as variedades de insólito? E que dizer, que não seja invalidado pelo
acontecimento de logo mais, ou de agora mesmo? [...] Entretanto, aí está você, casmurro e indisposto para
a tarefa de encher o papel de sinaizinhos pretos. [...]
Disponível em: <https://www.blogderocha.com.br/hoje-nao-escrevo-carlos-drummond-de-andrade/>. Acesso em: 25 mar. 2023.
Carlos Drummond de Andrade, nome indispensável para a história da Literatura Brasileira, é autor do texto
“Hoje não escrevo”, que se configura como sendo: