O Brasil é um dos países com mais baixa representatividade
feminina. E o impacto disso nas políticas públicas é enorme – e
problemático. O assassinato da vereadora Marielle Franco na
semana passada sacudiu o Brasil e trouxe à tona discussões
acaloradas, não só sobre violência e crime organizado, mas
também sobre a (falta de) representatividade feminina na política
brasileira.
(...)
Mas por que isso importa? (...) A eleição de políticas
mulheres não muda só o tipo de gasto público, mas também gera
efeitos significativos sobre resultados de saúde e educação. As
economistas Sonia Bhalotra e Irma Clots-Figueras estudaram o
efeito de eleições para assembleias estaduais na Índia. Elas
olharam para o caso das eleições distritais onde homens e
mulheres tiveram votações muito apertadas - lugares em que
homens ou mulheres ganharam por pouco. Elas descobriram que,
em assembleias estaduais que elegeram mais mulheres, há uma
redução significativa na taxa de mortalidade infantil neonatal.
Além disso, localidades que elegem mais mulheres têm uma
maior proporção de crianças que terminam o ensino fundamental.
Parte desses efeitos obtidos com a eleição de líderes
mulheres vem do fato que elas gastam de forma diferente e focam
em políticas públicas que enfatizam saúde e educação. Mas outra
coisa que explica a diferença nos resultados é que, na média,
mulheres são menos corruptas no poder (quantas mulheres estão
condenadas pela operação Lava Jato?). Os economistas David
Dollar, Raymond Fisman, e Roberta Gatti usaram um índice de
corrupção desenvolvido pelo Banco Mundial para analisar a
associação entre representatividade política feminina e corrupção
entre países. Eles mostram que, quanto maior a proporção de
mulheres no parlamento, menor é o índice de corrupção de um
país. Esses resultados são corroborados pelas economistas
Fernanda Brollo e Ugo Troiano num estudo que analisa o
impacto da eleição de uma prefeita mulher sobre a corrupção
municipal no Brasil. Usando dados das auditorias da
Controladoria Geral da União, elas mostram que quando há uma
eleição apertada entre homens e mulheres, e a mulher ganha por pouco, esse município tem menos incidência de corrupção do que
um município similar onde homens ganham por pouco.
FERRAZ, Cláudio. “Por que temos tão poucas mulheres na política e por
que isso importa” (Fragmento). Disponível
em: <https://www.nexojornal.com.br/colunistas/2018/Por-quetemos-t%C3%A3o-poucas-mulheres-na-pol%C3%ADtica-e-porque-isso-importa>. Acesso em 27/3//2018.