Vários profissionais estão desconcertados com o
português de boa parte da mídia, mas não apenas com
erros de ortografia, mais leves; ou de sintaxe, mais
graves, por ferirem a lógica e confundirem os leitores. Sua
perplexidade é com ataques absurdos como o seguinte: o
bandido é flagrado com arma na mão, confessa o crime
diante de câmeras e microfones, sem nenhum tipo de
coação, e, às vezes, reconhece, orgulhosamente, que o
sujeito filmado pelos sistemas de vigilância de lojas ou
residências é ele, sim, o meliante. E ainda assim boa parte
da mídia o denomina “suposto assaltante”, “suspeito de
crime” e outras delicadezas.
Escrever bem começa pelo seguinte: dar às coisas o
nome que as coisas têm. E não é só em relação a assaltantes e
gatunos, não. São assustadoras as indulgências concedidas
a esses políticos corruptos. Elas são mais perigosas do que
aquelas dadas aos bandidos comuns. Quando vão parar
nos presídios, irrompe na cena a cara de pau adicional
de simular esmolas recebidas para lhes custear as multas
aplicadas pela autoridade competente. Esmolas de meio
milhão de reais! O Brasil acaba de criar o mendigo de elite,
que é o bandido político.
Gozam dos benefícios dos eufemismos citados
também políticos de outros países. “Suposto” e “suspeito”
vêm sendo palavras curingas e têm servido para tudo,
principalmente para substituir o que significa outra coisa.
Suposto quer dizer admitido por hipótese. Deixamos
a palavra ali embaixo de “posto”, aguardando que a palavra
seja apurada. Suspeito tem o significado de alguém do
qual desconfiamos, que tenha feito algo que ele até pode
negar. Porém, quando supostos e suspeitos admitem ou
confessam, sem coação nenhuma, que foram os autores
do que lhes é atribuído, eles não são mais suspeitos nem
supostos.
Podemos fazer pouco, mas podemos ao menos
contar ao distinto público as coisas como as coisas são. E
para isso as palavras são outras, a sintaxe é outra, a lógica
é outra.
A mídia emprega “suposto assaltante” por delicadeza, segundo
o autor do texto; nesse caso, a mídia emprega um tipo de
linguagem figurada denominado: