A morte virou lugar-comum
(crônica de Arnaldo Jabor)
Só se fala em morte, hoje em dia. Quantos
morreram hoje na Síria? Só 130? Ontem foram
200. E na periferia de São Paulo, quantas
chacinas? Só duas, com alguns feridos? Quando
Hannah Arendt cunhou a expressão “banalidade
do mal”, ela não imaginava como a morte se
tornou um fato corriqueiro no mundo atual, sem
os trágicos acordes do Holocausto. Talvez haja
nas matanças banais um desejo de desvendar o
mistério da morte, bem lá no fundo do
inconsciente. Para além de vinganças, busca de
poder ou dinheiro, ódio puro, prazer, há a vontade
de ‘naturalizar’ a morte, de modo que ela deixe de
ser a implacável ceifadora.
Tenho certeza de que os assassinos que
passam de moto e metralham inocentes não têm
consciência da gravidade de seus feitos – apenas
mais um dia divertido de violências. Os filmes
americanos buscam o tempo todo essa banalidade:
tiros súbitos sem piedade, jorros de sangue
ornamentais, a beleza fálica das superarmas
automáticas. Nos brutos filmes de ação, nos
videogames, nas notícias bombásticas de tragédias
há um claro desejo de esquecer a morte,
mostrando-a sem parar. Um desejo de matar a
morte. Um desejo de entendê-la pela repetição
compulsiva. Mas, nunca conseguiremos exorcizála, porque quando ela chega não estamos mais
aqui. Gilberto Gil fez uma música genial sobre a
morte, onde ele canta, numa toada fúnebre:
“A morte já é depois/ já não haverá
ninguém/ como eu aqui agora/ pensando sobre o
além. / Já não haverá o além/ o além já será então/
não terei pé nem cabeça/ nem fígado, nem
pulmão/ como poderei ter medo/ se não terei coração?” É isso. Só se pode falar da morte pela
ausência. Nós apenas saímos do ar.
Desaparecemos.
Ela é tão banal que inventamos solenes
rituais para dar-lhe consistência, religiões ou
crenças materialistas para nos consolar: “O
universo é a eternidade. Deus é o universo, a
substância. Ele está nas galáxias e no orgasmo,
nos buracos negros e no coração batendo…”
“Grandes merdas” – penso hoje -, pois quando ela
chega acaba a literatura. Aliás, falar sobre a morte
também é um lugar-comum – mas agora, é tarde
demais para mim -, tenho de ir em frente. Até o
grande Guimarães Rosa caiu nessa: “Morremos
para provar que vivemos”. O Nelson Rodrigues
me perguntava sempre: “Pelo amor de Deus, me
explica essa frase! E qual a profundidade de
“Viver é muito perigoso?”
A morte só tem “antes”, não tem “depois” –
no Ivan Ilitch, do Tolstoi, quando ela chega, acaba
o conto. Ele diz no instante final: “A morte
acabou”. Dizem que o Muhammad Atta, o
terrorista que comandou o ataque às torres de NY,
era ateu, mas queria conhecer aquele instante que
separava o avião da torre erguida. A morte não
está nem aí para nós; ela tem “vida própria”. A
gente vai para um lado, o corpo para o outro. Ela
nos ignora, nossos méritos, nossas obras. Mais um
lugarzinho comum: “Só nos resta viver da melhor
maneira possível até o fim. Tem mais é que curtir,
gente boa…” Pois é; há muitos anos, pegou fogo
no edifício Joelma em São Paulo, torrando
dezenas de infelizes. Do prédio em frente, as
teleobjetivas fotografaram todas as agonias. Até
hoje, lembro-me da foto em cores de um homem
de terno, pastinha 007, agachado numa janela do
20.º andar, com o fogo às costas. Seu rosto
mostrava a dúvida: “O que é melhor para mim?
Morrer queimado ou me jogar?” Ele curtiu até o
fim – e se jogou.
O que me chateia é ficar desatualizado. As
notícias vão rolar e eu nada saberei. Haverá crises
mundiais, filmes que estreiam, músicas novas, e
eu ficarei lá embaixo, sem saber das novidades. É insuportável a desinformação dos falecidos. Meu
avô me disse uma vez: “Acho triste morrer, seu
Arnaldinho, porque nunca mais vou ver a Av. Rio
Branco…” Isso me emocionou, pois ele ia
diariamente ao centro da cidade, onde tomava um
refresco de coco na Casa Simpatia. Por isso,
quando me penso morto, eu, que não irei ao meu
enterro, de que terei saudades? Ou melhor, que
saudades teria se as pudesse ter?
Não terei saudades de grandes amores, de
megashows da vida de hoje, excessiva e
incessante. Não. Debaixo da terra, terei saudades
de irrelevâncias essenciais, terei saudades de
algumas tardes nubladas de domingo que só o
carioca percebe, tudo parado, com os urubus
dormindo na perna do vento, como dizia o sempre
presente Tom, do radinho do porteiro ouvindo o
jogo, terei saudades do cafezinho nas beiras dos
botequins, de certos tons de roxo e rosa em
Ipanema antes da noite cair, saudades do
cafajestismo poético dos cariocas, saudades dos
raros instantes sem medo ou culpa, de alguns
momentos de felicidade profunda, sem motivo,
apenas pela gratidão de respirar. Não terei
saudades dos fatos e notícias, nada do mundo
febril; só a quietude, o silêncio entre amigos na
paz de um bar, papos de cinéfilo, risos proletários
e camaradagem de subúrbio, do samba que nos
envolve nas rodas pobres com a alegre sabedoria
da desesperança, da Lapa, da Av. Paulista de
noite, do jazz, pernas cruzadas de mulheres
inatingíveis, terrenos baldios de minha infância,
saudades da literatura, do prazer da arte, Fellini,
Shakespeare, de Cantando na Chuva – o maior
hino da alegria americana, saudades de Fred
Astaire dançando Begin the Beguine com Eleanor
Powell, felizes para sempre dentro do universo
estrelado.
Há várias mortes. Há brutas tragédias, fomes
e bombas, horrendos desastres, mas, na morte
óbvia, comum, caseira, só temos duas escolhas:
súbita ou lenta. Você, frágil leitor, qual delas
prefere? O rápido apagar do “abajur lilás” de um
ataque cardíaco ou o lento esvair da vida, sumindo
com morfina? Se eu pudesse escolher, queria morrer como o velho Zorba, o grego, em pé, na
janela, olhando a paisagem iluminada pelo sol da
manhã. E, como ele, dando um berro de
despedida.