Ícone Questionei
QuestõesDisciplinasBancasDashboardSimuladosCadernoRaio-XBlog
Logo Questionei

Links Úteis

  • Início
  • Questões
  • Disciplinas
  • Simulados

Legal

  • Termos de Uso
  • Termos de Adesão
  • Política de Privacidade

Disciplinas

  • Matemática
  • Informática
  • Português
  • Raciocínio Lógico
  • Direito Administrativo

Bancas

  • FGV
  • CESPE
  • VUNESP
  • FCC
  • CESGRANRIO

© 2026 Questionei. Todos os direitos reservados.

Feito com ❤️ para educação

/
/
/
/
/
/
  1. Início/
  2. Questões/
  3. Língua Portuguesa/
  4. Questão 457941200289649

“No bonde mesmo o tempo começava a clarear e uma luz trêmula de sol escondido nos banhava e banhava o mundo”. A expressã...

1

457941200289649
Ano: 2017Banca: FAEPESULOrganização: Prefeitura de Celso Ramos - SCDisciplina: Língua PortuguesaTemas: Recursos Estilísticos | Análise Textual
Texto associado

Banhos de mar


    Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda, Recife.

    Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes do sol nascer. Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada e pegar o bonde vazio que nos levaria para Olinda ainda na escuridão? 

    De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço, eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Vestíamos depressa e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.

    Saíamos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o bonde. Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando. Eu me sentava bem na ponta do banco: e minha felicidade começava. Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear e uma luz trêmula de sol escondido nos banhava e banhava o mundo.

    Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos-de-pé: “Olhe um porco de verdade!” gritei uma vez, e a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras de minha família, que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe um porco de verdade”. 

    Passávamos por cavalos belos que esperavam de pé pelo amanhecer. 

    Eu não sei da infância alheia. Mas essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria. E me serviu como promessa de felicidade para o futuro. Minha capacidade de ser feliz se revelava. Eu me agarrava, dentro de uma infância muito infeliz, a essa ilha encantada que era a viagem diária. 

    No bonde mesmo começava a amanhecer. Meu coração batia forte ao nos aproximarmos de Olinda. Finalmente saltávamos e íamos andando para as cabinas pisando em terreno já de areia misturada com plantas. Mudávamos de roupa nas cabinas. E nunca um corpo desabrochou como o meu quando eu saía da cabina e sabia o que me esperava. 

    O mar de Olinda era muito perigoso. Davam-se alguns passos em um fundo raso e de repente caía-se num fundo de dois metros, calculo. 

    Outras pessoas também acreditavam em tomar banho de mar quando o sol nascia. Havia um salva-vidas que, por uma ninharia de dinheiro, levava as senhoras para o banho: abria os dois braços, e as senhoras, em cada um dos braços, agarravam o banhista para lutar contra as ondas fortíssimas do mar.

    O cheiro do mar me invadia e me embriagava. As algas boiavam. Oh, bem sei que não estou transmitindo o que significavam como vida pura esses banhos em jejum, com o sol se levantando pálido ainda no horizonte. Bem sei que estou tão emocionada que não consigo escrever. O mar de Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em concha, eu as mergulhava nas águas e trazia um pouco de mar até minha boca: eu bebia diariamente o mar, de tal modo queria me unir a ele. 

    Não demorávamos muito. O sol já se levantara todo, e meu pai tinha que trabalhar cedo. Mudávamos de roupa, e a roupa ficava impregnada de sal. Meus cabelos salgados me colavam na cabeça.

    Então esperávamos, ao vento, a vinda do bonde para Recife. No bonde a brisa ia secando meus cabelos duros de sal. Eu às vezes lambia meu braço para sentir sua grossura de sal e iodo.

    Chegávamos em casa e só então tomávamos café. E quando eu me lembrava de que no dia seguinte o mar se repetiria para mim, eu ficava séria de tanta ventura e aventura.

    Meu pai acreditava que não se devia tomar logo banho de água doce: o mar devia ficar na nossa pele por algumas horas. Era contra a minha vontade que eu tomava um chuveiro que me deixava límpida e sem o mar. 

    A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar? Nunca mais?

    Nunca mais.

    Nunca. 


(Clarice Lispector. Pequenas descobertas do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 2003.

“No bonde mesmo o tempo começava a clarear e uma luz trêmula de sol escondido nos banhava e banhava o mundo”. A expressão em destaque nessa frase registra uma figura de linguagem, assim denominada:
Gabarito comentado
Anotações
Marcar para revisão

Acelere sua aprovação com o Premium

  • Gabaritos comentados ilimitados
  • Caderno de erros inteligente
  • Raio-X da banca
Conhecer Premium

Questões relacionadas para praticar

Questão 457941200285790Língua Portuguesa

Sabendo que as funções da linguagem revelam a intenção da autora para com os propósitos do texto, podemos afirmar que, neste caso, a função predominan...

#Funções da Linguagem#Análise Textual
Questão 457941200347436Língua Portuguesa

A obra de Machado de Assis é vasta e compreende crônicas, cartas e romances. Na obra “Esaú e Jacó”, por exemplo, temos a história de Pedro e Paulo, do...

#Compreensão e Interpretação Textual#Relações Intertextuais#Recursos Estilísticos#Análise Textual
Questão 457941200463244Língua Portuguesa

Analise a regência verbal dos períodos seguintes:I. Depois do mestrado, ele visa a uma vaga em uma empresa multinacional.II. Na aula Literatura, nossa...

#Regência Verbal e Nominal#Sintaxe
Questão 457941200887777Língua Portuguesa

Ainda sobre crase, leia atentamente os períodos abaixo e identifique qual deles apresenta ERRO no emprego do acento grave. Assinale-o.

#Uso da Crase
Questão 457941200909941Língua Portuguesa

Quanto à sintaxe de colocação, o emprego do pronome oblíquo está correto em apenas uma das alternativas a seguir. Assinale-a.

#Colocação Pronominal#Morfologia dos Pronomes
Questão 457941201122348Língua Portuguesa

Ainda sobre a regência verbal: I – Os cargos ____________ aspiro ainda exigem muito mais estudo. II – Alguns alunos não se lembraram ___________ preci...

#Preposições#Morfologia#Sintaxe#Regência Verbal e Nominal
Questão 457941201288979Língua Portuguesa

Analise atentamente a grafia das palavras seguintes: I. Contracheque / malpassado / subemprego / hiperacidez. II. Superpopulação / autoescola / extraf...

#Uso de Letras Maiúsculas#Ortografia
Questão 457941201504483Língua Portuguesa

Nos textos escritos em norma padrão é comum encontrarmos muitos problemas de concordância verbal, como nas frases abaixo, retiradas de textos encontra...

#Sintaxe#Concordância Verbal e Nominal
Questão 457941201706556Língua Portuguesa

Nas provocações reflexivas de Drummond, o texto acima tem como questão central:

#Compreensão e Interpretação Textual#Análise Textual
Questão 457941201918234Língua Portuguesa

O eu lírico está fortemente marcado nesses versos. Quando Drummond prepara “uma canção amiga”, ele quer nos falar sobre qual tema?

#Compreensão e Interpretação Textual#Análise Textual

Continue estudando

Mais questões de Língua PortuguesaQuestões sobre Recursos EstilísticosQuestões do FAEPESUL