Em 2016, a psicóloga Gésica Bergamini ouviu falar de uma técnica terapêutica alternativa que estava se
popularizando: a constelação familiar. Como uma profissional da área, decidiu se atualizar – comprou livros sobre
o tema e foi participar de sessões presenciais para entender aquele método alternativo. O que ela ouviu ao ser
atendida, porém, não é o que se espera de uma terapia convencional.
É que Gésica tem um filho autista – e o que lhe foi dito em uma sessão de constelação é que a “culpa” disso era
dela mesma. O motivo? Ela era uma pessoa que enfrentava ideação suicida, decorrente de transtornos
psiquiátricos. “Me disseram que, como eu negava a vida, eu não poderia dar a vida a ele. Eu precisava aceitar a
vida e renascer para meu filho se ‘curar’ do autismo”, conta.
Nem é preciso dizer que isso é pura balela: o transtorno do espectro autista resulta do desenvolvimento atípico do
cérebro de uma pessoa, tem raízes genéticas e não é “culpa” de alguém, muito menos por razões espirituais. E,
claro, não tem cura.
Esse nem foi o maior absurdo que Gésica ouviu naquele dia. Na sessão de outra paciente – as constelações
ocorrem em grupo e são abertas, como veremos adiante –, uma mulher relatou que havia sido abusada
sexualmente pelo pai. Um homem desconhecido foi chamado para “representar” seu pai naquela sala, e ela foi
orientada a se ajoelhar e pedir perdão a ele. “Ela chorava demais e dizia ‘eu não consigo, eu não consigo”’, conta
Gésica.
Esse não é um relato isolado. Nos últimos anos, depoimentos de pessoas que passaram por situações vexatórias
e humilhantes durante sessões de constelação familiar passaram a aparecer com mais frequência na mídia e nas
redes sociais, levantando um debate sobre a validade de sua aplicação. [...]
Disponível em: https://super.abril.com.br/ciencia/o-que-e-a-constelacao-familiar-e-quais-sao-seus-perigos. Acesso em: 29 ago.
2024.
Com base nas sequências textuais e na construção argumentativa do fragmento, a estrutura do texto