A comediante americana Tina Fey, criadora da série "30
Rock", publicou recentemente sua autobiografia ("Bossypants",
editora Reagan Arthur, inédito no Brasil). No livro, Tina dedica
quase um capítulo inteiro ao Photoshop. O que se pergunta é:
como equacionar a crítica à pressão para que toda mulher seja
jovem, magra e bonita, com o onipresente programa de
computador, que a deixa jovem, magra e bonita, toda vez que
aparece numa revista?
Mais ainda: sendo humorista, e, portanto, tendo por ofício
mostrar o que há de ridículo e humano por trás da pompa, da
empáfia, da hipocrisia e demais tapumes, não estaria ela
cometendo falsidade ideológica, ao sair em ensaios fotográficos
com as orelhas de abano aplainadas e os pés de galinha
surrupiados digitalmente?
Acredito que tais dúvidas vão além do universo das
celebridades, das feministas ou dos humoristas. Afinal, desde que
trocamos o balcão da padaria pelo salão bem mais amplo das
mídias sociais, nos transformamos em pequenos personagens
numa enorme competição midiática. O que é o perfil no
Facebook senão a capa da sua revista? O que é o Twitter, senão
sua coluna? O Instagram, sua galeria, o blog, seu jornal. E,
ninguém querendo mostrar orelhas de abano ou pés de galinha,
seja no rosto, seja na alma, vivemos num mundo cada vez mais
retocado.
Por trás da falsa descontração dos tuítes, podemos ver as
piadas encolhendo a barriga, as críticas estufando o peito, as
celulites de nossas inseguranças escondidas sob leves camadas
de sarcasmo. O resultado é uma abundância de opiniões e uma
escassez de vozes. Muita inteligência e pouca sinceridade. Todo
mundo bem protegidinho e parecido, como os corpos corrigidos
no computador. Não quero parecer um desses apocalípticos que
creem que o mundo piora na medida em que a tecnologia avança.
Pelo contrário, parece-me que estamos bem melhor hoje do que há 30 ou cem anos, mas é que tenho achado a vida um pouco
chata, as pessoas um tanto falsas — eu, principalmente.
Talvez isso não tenha nada a ver com a época, mas seja
fruto da minha idade. Trinta e poucos anos. O idealismo da
adolescência já se esgotou, a sabedoria da maturidade ainda não
chegou. É nesse hiato que costuma brotar o cinismo, maior de
todos os Photoshops. Agora mesmo, sussurra em meu ouvido que
esse papo de autenticidade é uma bobagem. Que a verdade é
apenas mais um equívoco do século 20 ou da juventude (...).
Promete, em troca de uma ilusão puída e dois ou três sonhos não
realizados, seu pacote completo: agilidade nas relações, rapidez
nas decisões, uma vida tranquila e vazia.
No fundo, a proposta mefistotélica do cinismo é a mesma questão
de Tina Fey, diante do Photoshop, e a mesma que temos que
responder, a cada vez que abrimos a boca ou postamos uma
informação nas redes sociais: afinal, o que queremos, dizer a
verdade ou aparecer bem na foto? É uma pergunta ingênua,
sussurra alguém ao meu lado. Talvez. Mas garanto que é uma
pergunta sincera.
Prata, A. “Photoshop” (texto com adaptações). Disponível em:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0211201104.htm.
Acesso em 06/04/2017.