Leia o texto a seguir para responder a esta questão.
Línguas mudam
Sírio Possenti
Desde a década de 1960, um fator foi associado sistematicamente à mudança
linguística: a variação. Isso quer dizer que, antes que haja mudança de uma forma a outra, há um período de variação, quando as duas (ou mais) ocorrem – inicialmente em espaços ou com falantes diferentes. Aos poucos, a forma nova vai sendo
empregada por todos; depois, a antiga desaparece. Qualquer exemplo de mudança serve para ilustrar o fato: tomemos “igreja”, derivado de “ecclesia”. São mudanças gerais na passagem do latim ao português. As mais óbvias são a sonorização do ‘c’ (k), uma surda que se torna sonora (g) entre vogais; o ‘e’ que se eleva
e se torna ‘i’. Fixemo-nos neste caso, para ilustrar a tese mencionada acima: a
grafia “egreja” é atestada, o que significa que a pronúncia com ‘e’ inicial esteve em
variação com outra, com ‘i’.
O que quer dizer [que determinada forma] “desapareceu”? Que não se emprega
mais? Não! Quer dizer que não é mais de emprego corrente. De vez em quando,
há discussões sobre certos casos. Dois exemplos: o pronome ‘cujo’ e a segunda
pessoa do plural dos verbos (‘jogai’ etc.).
Minha avaliação (bastante informal) é que ‘cujo’ desapareceu. O que quer dizer
“desapareceu”? Que não se emprega mais? Não! Quer dizer que não é mais de
emprego corrente; só aparece em algumas circunstâncias – tipicamente, em textos
muito formais.
Que apareça em textos antigos é uma evidência de que a forma era / foi empregada. Que apareça cada vez menos é um indício de que tende a desaparecer.
Com um detalhe: desaparecer não quer dizer não aparecer nunca mais em lugar
nenhum. Quer dizer não ser de uso corrente.
Outro caso é a segunda pessoa do plural, em qualquer tempo ou modo. Recentemente, um colunista defendeu a tese de que a forma está viva. Seu argumento:
aparece em cartazes de torcedores em estádios de futebol, especialmente do Corinthians, no apelo “jogai por nós”. Apesar de utilizada em torcidas de times de
futebol, em especial a do Corinthians, a segunda pessoa do plural tende a desaparecer, ficando limitada a situações muito específicas.
Mesmo que este seja um fato, a conclusão é fraca. A forma é inspirada numa ladainha de Nossa Senhora, toda muito solene, muito mais do que formal. E é bem
antiga, traduzida do latim. Os ‘vocativos’ são títulos de Nossa Senhora: Arca da Aliança, Torre de Marfim etc. A cada invocação, os fiéis respondem “rogai por nós”.
“Jogai por nós” é uma fórmula inspirada em outra fórmula, típica dessa oração.
Para que se possa sustentar que a segunda pessoa do plural não desapareceu,
seria necessário que seu uso fosse regular. Que, por exemplo, os corintianos também gritassem “Recuai, Wendel”, “Não erreis estas bolas fáceis, Vagner Love”,
“Tite, fazei Malcolm treinar finalizações” e, quando chateados, gritassem “Como
sois burro!”. Espero que nenhum colunista sustente que isso ocorre…
O uso eventual de uma forma não significa que ela está viva; significa que resiste
em certos casos, os mais óbvios sendo os textos antigos ou muito formais, como
alguns dos religiosos. Sempre cito a Carta de Caminha para mostrar mudanças,
das quais ninguém reclama, aliás. Caminha pede a Sua Alteza que traga seu cunhado de volta do exílio, e lhe diz que “será de mim mui(to) bem servida”. Mesmo
quando a Carta é atualizada, estas formas permanecem.
[POSSENTI, Sírio. Línguas mudam. Ciência Hoje. Coluna Palavreado. 2015.
Adaptado]
O texto de Sírio Possenti apresenta argumentos sobre as mudanças das línguas.
Tendo em vista essa afirmação, analise as alternativas que se seguem.
I. O artigo permite entrever variação, na escrita e na fala, da palavra ‘você’,
pois encontra-se a forma ‘cê’ tanto em textos escritos em redes sociais
quanto em textos falados cotidianamente.
II. Itens lexicais podem sofrer alterações fonéticas, morfológicas, semânticas
e discursivas.
III. O pronome cujo tem sido usado em situações bastante formais, indicando
posse e concordando com a palavra posterior a ele.
Está CORRETO o que se afirma em: