Teimosia e volta por cima aprende-se
com as embaúbas
(Lara Norberto Renzeti)
01 Na altura da minha varanda, no quarto andar do
prédio, está o topo de uma embaúba. Nas raízes da
árvore, emaranhadas entre a terra e as pedras, encontrase um pedaço azul de lona, lixo esquecido ali há alguns
anos. Para além das embaúbas, que se ajeitam em
grupo nos limites do terreno vizinho, há uma estrada de
tijolos cinzas e vermelhos, que passa por entre as casas
e vai até o portão. As casas estão ocas, inacabadas,
mas não lhes falta vida, já que plantas se ancoram em
seus muros e crescem sem pretensões decorativas no
que poderiam ter sido tanto jardins quanto garagens.
Atrás das ruínas, há restos de floresta.
02 Nem sempre foi assim. Quando vim morar neste
prédio, em 2006, o terreno dos fundos era mato.
Remanescente do sítio de alguma família dos primórdios
de Jacarepaguá, um tímido pedacinho de Mata Atlântica
preenchia quase todo o espaço, com exceção do antigo
casarão em ruínas. Foi, na verdade, este o motivo pelo
qual me mudei: meus pais queriam um apartamento mais
tranquilo, de onde se pudesse ver um pouco de
natureza. Onde hoje há uma embaúba, naquela época,
havia uma árvore de folhas e frutos pequenos, que, de
verão a verão, abrigava os mais diversos passarinhos.
03 O que mais chamava a minha atenção eram os
saís-azuis. Eles sempre apareciam na árvore, para fazer
um banquete de frutinhos. O macho era azul e preto, e a
fêmea era verde. Aquelas cores vivas me fascinavam, e
eu, com oito anos de idade, ficava feliz por saber que
seres tão belos moravam perto por causa da árvore. Ela
crescia e frutificava, e eu contava com ela para me
mostrar os pássaros.
04 A vista da varanda era o maior orgulho de nosso
apartamento. Por anos, todos os convidados que
visitaram minha casa atravessaram meu quarto para
conhecer o terreno dos fundos, olhar suas cores, escutar
seus sons. Mas, quando menos esperávamos, ouvimos
vozes humanas vindas de lá. Vários homens
conversavam, apontavam para as coisas e iam
adentrando o pequeno fragmento de floresta. Eles
continuaram por alguns dias conversando e apontando
para as coisas, até que penduraram uma placa com
logomarca de imobiliária no portão. A floresta ia virar
condomínio.
05 Na época, não entendia bem como as coisas
funcionavam, mas me lembro dos meus pais e dos
vizinhos de prédio comentando que a obra era irregular.
Que a empresa dava golpes nos compradores. Que não
podiam cortar árvores. Que íamos embargar a obra. Mas
já havia marcações em vermelho em algumas árvores. O
que era aquilo? Sentença de morte? Todo dia, eu
procurava aquela tinta, vermelha como sangue, no
tronco da minha estimada árvore especial, que resistia
como se não fosse vista, no cantinho do terreno. Em
pouco tempo, o som de motosserra se misturou com o
canto das cigarras. De vez em quando, eu sentia a falta de alguma coisa na paisagem: a pequena floresta ia
ficando cada vez mais esburacada.
06 Tudo isso foi muito aos poucos. Não percebi
quando começaram a construir. Sei que aterraram a
antiga piscina, foram derrubando árvore atrás de árvore,
até que surgiu espaço suficiente para mais de dez casas,
e eu parei de olhar. Parei de ir à minha própria varanda
porque tudo que eu via era aridez e destruição. Eu tinha
medo de um dia encontrar a minha árvore cortada, caída
no chão, morta. Ela resistiu bravamente. Foi a última.
Nunca foi diretamente assassinada, mas se cansou e foi
morrendo aos poucos, lentamente, consumida por um
solo capinado e sem vida. Nunca descobri seu nome.
Nunca mais vi saí-azul.
07 Ao longo do tempo, a obra foi embargada e
retomada. Pelo visto, os avisos dos meus vizinhos eram
bem fundamentados: a imobiliária nunca entregou as
casas prontas. A floresta foi destruída em vão.
08 Imóveis inacabados podem ter três principais
destinos. O primeiro deles é o esquecimento, quando, ao
longo do tempo e da desvalorização econômica, a
natureza toma conta, transformando-os em substrato e
abrigo de seres não-humanos. O segundo é o
descobrimento, caracterizado pelo abandono inicial e
posteriores ocupações, resultantes de uma sociedade
que não garante abrigo a todos os humanos. O terceiro é
o acabamento, que precisa que as obras continuem.
09 Os compradores das casas, que sofreram o
golpe da imobiliária, provavelmente sabiam dessas
possibilidades. Pensando em manter um pouco do que
se tornou deles por contrato, não abandonaram o terreno
por completo e resolveram, por conta própria, tocar a
obra. De vez em quando, aparecem trabalhadores:
pintam uma parede, instalam luz elétrica, terminam um
telhado. Por vezes, os próprios donos aparecem para
cortar a grama. Isso acontece há uns dez anos, e as
casas continuam inacabadas. No fundo, queria que essa
obra nunca terminasse, presenciar o esquecimento,
porque sei que a natureza nunca esquece. Num olhar de
relance, o muro das casas estava coberto de plantas
trepadeiras.
10 Arrisquei voltar à varanda. Agora que a minha
árvore já estava morta mesmo, já não tinha muito a
perder, certo? Errado. Como se cortinas se abrissem
para o segundo ato do terreno, percebi que havia muito
mais nele do que aquela única árvore que por tanto
tempo amei. Mais uma vez, surgiu vida que era possível
ser avistada da varanda e da janela. Ainda há ao fundo
árvores grandes, que estavam lá desde o começo.
Outras mais jovens vi crescer, como um coqueiro que se
posiciona estrategicamente na “garagem” de uma das
casas de cimento. Resistem insetos, lagartos, aves e,
certamente, uma variedade de animais bem escondidos.
Das manhãs e tardes de admiração e das noites de
atenção ao não-silêncio, aprendi os nomes de alguns
desses vizinhos.
11 Todos os dias, em especial no fim da tarde, as
andorinhas se exibem a voar em círculos. Assisto às
suas coreografias como se fosse um filme que passa na
janela do meu quarto. Algumas vezes, na calmaria
aparente da noite, sem luzes, ouço bacuraus e corujas.
Vejo sanhaços, bem-te-vis, sabiás, tucanos, papagaios, urubus, gaviões, gralhas-do-campo e uma porção de
aves cujo nome ainda não sei. Aliás, em certa ocasião,
um bem-te-vi expulsou uma gralha. Ele voou para cima
dela e bicou suas penas até que ela fosse para bem
longe de uma árvore. Acabei rindo da falta de sorte da
gralha, que é bem maior do que o bem-te-vi, mas
perdeu. Já vi três bem-te-vis fazendo o mesmo com um
tucano de bico amarelo, que também é muito maior do
que eles. E assisto tudo da minha janela.
12 Apesar da admiração por seres carismáticos e
voadores, o que mais me fascina nesse espetáculo vivo
são as embaúbas. Essas árvores de troncos finos e
folhas largas e que quase não são raras. Ao contrário,
árvores do gênero Cecropia, que engloba todas as
embaúbas, estão entre as mais abundantes espécies
das florestas dos neotrópicos. Podem ser encontradas
nas encostas da Grajaú-Jacarepaguá, no meio
da Floresta da Tijuca ou do Parque Estadual da Pedra
Branca. Se você estiver em um avião, sobrevoando
algum fragmento de Mata Atlântica, vai vê-las facilmente
lá do alto, porque elas são os pequenos pontos
prateados que se destacam dos tons de verde da
floresta.
13 Embaúbas não são muito exigentes. Quando há
um distúrbio na floresta, quando o vento ou as pessoas
derrubam árvores, formando clareiras, as sementes
de Cecropia, que estavam no solo em dormência,
germinam com a luz do sol. Nesses ambientes abertos,
degradados, inóspitos, as embaúbas se instalam e
crescem avidamente. Até parece que têm pressa. Logo
ficam altas, suas folhas se desenvolvem, mas duram
pouco e morrem rápido, caindo enrugadas e marrons no
chão, decompondo-se e devolvendo nutrientes para a
terra. Despertadas pelos vazios de vida na paisagem,
embaúbas são espécies pioneiras que, aos poucos,
alteram seus arredores e facilitam que novas espécies
vegetais prosperem em seu entorno.
14 Não satisfeitas, elas ainda são atraentes para
animais. Suas flores, apesar de polinizadas pelo vento,
também podem ser polinizadas por insetos como
besouros. Suas infrutescências alongadas servem como
fonte de alimento para uma diversidade de frugívoros,
como aves, gambás, macacos e até peixes, que se
alimentam dos frutos que caem em rios. Depois que
comem os frutos e se deslocam para longe, esses
animais dispersam as sementes de embaúba. E assim
elas chegam a quase todos os lugares. Preguiças e
bugios também são grandes apreciadores de suas
folhas, passam horas abraçados a seus galhos,
comendo e descansando, enquanto tomam sol. Claro,
também há desvantagens em ser o grande restaurante
florestal. Embaúbas sofrem com o consumo de suas
folhas, mas subornam com alimento e proteção formigas
do gênero Azteca para torná-las suas fiéis escudeiras.
Essas formigas agressivas vivem em colônias dentro do
tronco oco da embaúba. Para defender sua casa,
atacam os herbívoros que vêm para comer as folhas.
15 Embaúbas são acervos de interações e símbolos
de resistência da natureza. É por isso que elas tomaram
o terreno vizinho. Elas estão lá contando uma história.
Mais do que a história de um terreno específico e
especial para poucas pessoas atentas, essa é a história
de muitos dos remanescentes florestais em centros
urbanos. Em uma cidade como o Rio de Janeiro, onde novos prédios sobem às custas da retirada das árvores,
há um valor inestimável nos seres que insistem em
existir. A persistência desses pontos verdes no meio da
selva de concreto é um grito de guerra. É a memória do
que se perdeu e a esperança de que nem tudo está
perdido. Ainda há vida para preservar e proteger, para
ver renascer dos escombros.
16 Hoje, existem ações de reflorestamento
acontecendo em áreas urbanas, como o projeto Revive
Jacarepaguá, na minha vizinhança, cujo objetivo é
repovoar as margens do rio Anil com espécies vegetais
nativas da Mata Atlântica. Iniciativas como essa podem
estar em seus primórdios, mas são um exemplo de que é
possível escrever uma história melhor para a natureza
em escala local. Humanos têm a capacidade de
entender o que significam os retalhos de verde no
cotidiano urbano. Apesar do nosso potencial arrebatador
de destruição, também somos a voz da nossa própria
consciência e podemos frear os nossos erros. Tudo
começa quando prestamos atenção na vida que ainda se
exibe aos nossos olhos, quando queremos ser as
embaúbas na frente da minha varanda, teimosas, que
insistem em fincar raízes e crescer na terra marcada por
uma história de devastação.
Adaptado de <https://oeco.org.br/analises/teimosia-evolta-por-cima-aprende-se-com-as-embaubas/>. Publicado em 18 de outubro de 2019. Acessado em 22/09/2024.