Um programa mínimo
Um dos principais problemas escolares (e talvez
culturais) do Brasil é o ensino de língua na escola.
Exames mostram que se lê e se escreve com alguma
precariedade. Testes não cessam de mostrar uma série
de problemas. Às vezes, são problemas falsos, ou
menores, como certos desvios de grafia e de gramática
que até os profissionais da escrita cometem (e que os
revisores limpam). A ênfase nesses detalhes ajuda a
emperrar projetos interessantes. Tais problemas às
vezes são considerados graves por ignorância do que
são os problemas graves. Mas, como são os únicos
conhecidos...
Em diversas áreas, como a agricultura e a indústria,
todos sabem que o desenvolvimento científico é crucial
para seu sucesso (basta ver o que a Embrapa fez e faz).
No entanto, na área do ensino de língua, não só o que
se sabe sobre línguas e sobre seu aprendizado é pouco
levado em conta, como chega a ocorrer o contrário: as
informações científicas são consideradas uma ameaça.
Levando em conta o que se sabe, poder-se-ia desenhar
um programa mínimo para a escola brasileira, no qual eu
esboçaria o seguinte plano:
1. Uma decisão não ligada à questão do ensino de
português, mas que é condição essencial de seu
sucesso é que os alunos permaneçam na escola
pelo menos durante oito anos.
2. A segunda preliminar é não lamentar que a
realidade seja como é. É provavelmente verdade
que seria bom que fosse outra, mas nada é
mais prejudicial a um projeto do que escamotear
problemas. Explicitando: não adianta lamentar
que os alunos falem como falam e, portanto,
que seu saber linguístico esteja mais ou menos
distanciado do padrão que se quer atingir.
3. Uma consequência desse item é que a escola
precisa conhecer como fala sua clientela. Em
termos práticos, isso significa que é necessário
elaborar (os professores podem perfeitamente
fazer isso) uma descrição mínima do português
tal como é falado em cada circunscrição escolar:
descrever os traços mais salientes da fonologia
e/ou da pronúncia local (por exemplo, se há
variações como “bicicleta / bicicreta", “alho / aio",
“menino / mininu", “louro / loro", “feito / feitcho"
etc.), da morfologia (qual é a flexão verbal
realmente empregada, por exemplo) e de alguns
aspectos da sintaxe (há ou não variações como
“os meninos / os menino", “viu-me / me viu / viu eu"
etc.) e de léxico (em que medida regionalismos
ou gírias caracterizam de fato – insisto nisso: de
fato – a fala da região). Em suma: saber de onde
a escola pode partir. Nem se devem esconder
os fatos, por vergonha e preconceito, nem se
devem inventar falsos problemas – o que é muito
frequente.
Claro, não mencionei as duas tarefas mais fundamentais
da escola: ler muito e escrever muito. O que foi dito acima
é apenas para limpar o terreno, cheio de preconceitos e
de desinformação.
POSSENTI, Sírio. Um programa mínimo. Instituto Ciência
Hoje. Disponível em:
<http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/palavreado/um-programa-minimo> .
Acesso em: 11 ago. 2015.
Adaptado.