Leia o texto a seguir e responda à questão.
Silvio Santos: o dono do auditório
Silvio Santos vai ser sempre lembrado como referência na
história da TV mundial. Como apresentador, passou por
todas as fases da TV brasileira
Artigo de Cláudio Ferreira, jornalista e estudioso de televisão*
Todas as reverências são poucas para
homenagear Silvio Santos. Mesmo quem o considerava
brega, ultrapassado, muitas vezes inconveniente tem que
reconhecer: ele foi um empreendedor nato, desafiou
vários padrões da televisão brasileira e pode ser
considerado, sem medo, sinônimo do gênero programa de
auditório.
Como apresentador, passou por todas as fases da
TV brasileira: em preto e branco ou em cores, ao vivo ou
gravado, com poucos ou muitos recursos tecnológicos. Ele
era sempre a atração principal, dividindo os holofotes seja
com artistas conhecidos, seja com os calouros anônimos
ou as “colegas de trabalho”. Paletós com padronagens
estranhas, o microfone pendurado no peito, o cacoete da
língua nos lábios. Nosso amigo íntimo.
Como empresário de TV, não descansou até
conseguir montar sua rede de emissoras e lutou pela
liderança de audiência — na maior parte do tempo, ficou
com a vice ou o terceiro lugar. Era conhecido pela
interferência direta na programação, o que provocava uma
inconstância de horários de exibição e a retirada repentina
de programas do ar. Mas deixava claro: quem mandava era
ele.
Consolidou o programa de auditório como atração
televisiva. A fórmula certeira — carisma do apresentador +
atrações variadas + plateia animada — foi exaustivamente
copiada e assimilada. Chegou a ficar 12 horas no ar aos
domingos, tornando-se, junto com a missa e a
macarronada, parte do cardápio do fim de semana.
Quem era criança a partir dos anos 1960 com
certeza tem lembranças dos vários programas que Silvio
Santos apresentou ao longo da carreira gigantesca. A
narração sempre exagerada, o desfile de artistas
populares, o jeito espontâneo — muitas vezes, até demais
—, são muitas as características da presença do
apresentador na TV. Tanto que o Rei dos Domingos povoa
a internet com memes, que já existiam antes de serem
batizados com essa expressão.
Mesmo antes da TV fechada e dos streamings,
muita gente já torcia o nariz para os exageros da TV
aberta. E Silvio Santos era sinônimo de exagero: a
cobertura jornalística da morte dele, que ocupou a
programação de várias emissoras [...], destacou cenas
hilárias, com o apresentador montando um burro no palco,
caindo n’água ou escorregando num tapete.
Era essa a mágica. O mesmo homem de bilhões de
reais parecia o tiozão do pavê, aquele que dá vexame no
fim da festa de casamento. Ao mesmo tempo em que
exaltava o tamanho dos estúdios do SBT às margens da Via
Anhanguera, em São Paulo, ele falava com o público como
se estivesse dentro da casa das pessoas.
Arriscou-se na política, sempre foi alinhado aos
governos conservadores, colocou no ar, durante alguns
anos, a Semana do Presidente, programete que resumia os
feitos dos presidentes da República. Por outro lado,
sempre abriu espaço para os artistas LGBTQIA + nos seus
programas, o que só veio a acontecer em outras emissoras
muito tempo depois. Incoerente total.
Sei que muita gente agora vai dizer que “nunca
assistiu Silvio Santos”. Humm. Desconfie. Que atire a
primeira pedra quem não tentou adivinhar as melodias
ocultas do Qual é a Música. Ou os mais jovens, que, no fim
do domingo, completaram mentalmente alguma palavra
do Roda a Roda Jequiti. Fora os da minha geração, que se
lembram, com certeza, do Boa Noite, Cinderela, da
infância, ou da Porta da Esperança, da juventude.
Silvio Santos vai ser sempre lembrado como
referência na história da TV mundial: o dono de emissora
que cultivou no brasileiro o gosto por novelas mexicanas
mesmo diante de uma produção nacional de qualidade
reconhecida ou o multiempresário que, a partir da TV, fez
negócios de sucesso, como a Telessena e os perfumes da
Jequiti, que arrebatam até os artistas das concorrentes.
Eu tenho um arsenal de lembranças, outro de
críticas, mas, como estudioso de televisão, seria injusto
deixar de reconhecer o valor de SS. Os acadêmicos já se
debruçaram sobre essa história, há livros publicados sobre
o fenômeno, registrando a grande herança de Silvio
Santos: a capacidade de se comunicar com o público. Que
me perdoem os influenciadores do presente, mas, nisso,
ele era o mestre maior.
FERREIRA, Cláudio. Silvio Santos: o dono do auditório. Correio Braziliense,
18 de agosto de 2024. Disponível em:
https://www.correiobraziliense.com.br/opiniao/2024/08/6922583-odono-do-auditorio.html. Acesso em: 21 ago. 2024. Adaptado.