Tragédias não devem ser comparadas.
São únicas na memória de uma nação. As
imagens de cidades interior do Rio Grande do
Sul, no entanto, nos fazem recordar de
catástrofes que entraram para a história do
mundo moderno, como a passagem do furacão
Katrina pelos Estados Unidos e os tsunamis da
Indonésia e do Japão, e até mesmo cenas de
cidades bombardeadas, como ocorreu
recentemente na Faixa de Gaza, na Ucrânia e
na Síria.
Como as águas do Guaíba ainda não
baixaram na Grande Porto Alegre, onde está
concentrada a maior parte da população do
estado, é impossível se ter a exata dimensão
dos danos. E nem é momento de se fazer
contas. Agora, a prioridade é salvar vidas,
ajudar no resgate de pessoas ilhadas e fazer
chegar comida e água potável à população.
É prematuro também se apontarem
culpados. O volume que caiu de água na
região nunca havia sido medido pelo homem
— modelos meteorológicos indicam que a
probabilidade é de um caso a cada 10 mil anos.
A referência que existia, até então, era a
enchente de 1941, que acabou superada com
folga. Em Canoas, por exemplo, o sistema de
proteção foi feito com base nos números de 83
anos atrás e mais de dois terços da cidade
acabaram inundados.
Mas erros nitidamente ocorreram,
principalmente, por omissão. Em Porto Alegre,
o professor Gean Paulo Michel, do Instituto de
Pesquisas Hidráulicas (IPH), aponta que a falta
de manutenção e a negligência dos entes
públicos contribuíram para o colapso no
sistema de contenção de água,
independentemente dos valores gastos nos
últimos anos.
Outro ponto que precisa entrar no radar
de toda a sociedade são os alertas dados pela
ciência para a mudança climática em
andamento. É preciso deixar teorias
conspiratórias de lado [...]. As autoridades
devem, sim, implementar medidas para prever
os extremos ambientais. Eles estão cada vez
mais recorrentes.
A tragédia do Rio Grande do Sul nos
serve como um lembrete cruel da fúria da
natureza e da necessidade de estarmos preparados para o futuro. É fundamental
investir em infraestrutura resiliente, aprimorar
os sistemas de alerta precoce e implementar
políticas públicas que levem a sério as
mudanças climáticas. Acima de tudo, é preciso
agir com urgência e responsabilidade para
evitar que desastres dessa magnitude se
repitam.
O caminho para a reconstrução será
longo e árduo, deve durar anos, mas a união e
a solidariedade do povo gaúcho serão
essenciais para superar essa fase difícil.
FONSECA, Roberto. Até quando vamos ignorar o alerta
da natureza? Correio Braziliense, 10 de maio de 2024.
Disponível em:
https://www.correiobraziliense.com.br/opiniao/2024/05/6
854195-alerta-para-o-futuro.html. Acesso em: 11 mai.
2024. Adaptado.