No luto, ninguém aguenta sua tristeza, a sua
falta de vontade. Nem passou um mês da perda e os
amigos já querem que você saia. Já querem que você
converse animadamente. Já querem o seu riso de volta.
Não entendem o processo. Não respeitam a solidão.
O que mais você escuta é que deve seguir
adiante. Para onde? Se os olhos estão voltados para o
passado, para a saudade, para entender o que
aconteceu. Não tem como tratar a morte de um ente
querido, como se fosse um simples aborrecimento.
Nossa vida não é mais a mesma, não tem como
seguir como era antes. Quando morre quem você ama,
quem você era morre junto. Você já é uma outra
pessoa. Nem você mais se conhece.
No luto, você vê que é uma mentira social, que
as pessoas se habituam com a dor. Pois você sofre
cada vez mais de saudade. O sofrimento de um mês da
perda não muda depois de cinco anos, aliás só
aumenta, pois você vai percebendo que a falta do ente
querido é irreversível.
Você cuida do canteiro estreito de uma lápide
por não poder mais cuidar da extensão infinita de uma
vida. No luto não dói somente o passado, mas o futuro
que não ocorreu.
“A morte desconstrói as nossas crenças, as
nossas certezas, as nossas convicções. Você deixou de
existir para alguém. E essa pessoa continua cada vez
mais viva dentro de você.”
Fabrício Carpinejar 19/09/2023
(Disponível em https://www.em.com.br/app/noticia/
pensar/2023/09/15. Acesso em 13/10/2023)