Mala de Pedras
Certa vez, ao pedir informações, um rapaz confundiu
esquerda com direita. Isso me fez pensar na dificuldade
que muitos tem em se orientar no espaço — e, quem
sabe, no tempo também.
Vi isso no meu neto Guilherme, de três anos,
aprendendo com entusiasmo os sentidos de frente, trás,
direita. Mas mesmo nós, adultos, às vezes, erramos o
rumo. Olhamos para frente, mas enxergamos para trás.
Seguimos o retrovisor, presos ao passado, como atores
repetindo o mesmo roteiro. O que já vivemos pesa como
uma mala cheia de pedras, nos impede de ver com
clareza o que podemos ser.
Nossa história deve ser bagagem útil, não fardo. O
menino aprenderá logo. E eu também quero aprender:
largar parte dessa carga, limpar os óculos da alma.
"Tudo passa", dizia a tatuagem de um jogador. Sim, mas
às vezes as marcas ficam. Ainda assim, vale tentar —
deixar a mala para trás e seguir com um novo olhar.
Antonio Carlos Sarmento - Texto Adaptado
https://cronicaseagudas.com/2022/10/02/mala-de-pedras/