Texto 4
Monstros de estimação
Outro dia, passando para mim mesmo o DVD de
“O Lobisomem”, o clássico de 1941 com Lon Chaney Jr.,
mais uma vez fiquei revoltado: o Lobisomem, depois
de estraçalhar dois ou três em defesa própria, é morto
a tiros pelo próprio pai na penúltima cena — e, na
última, quebrando-se a maldição de que fora vítima,
volta a ser o inocente Lawrence Talbot, um sujeito
que, de tão doce, é uma ameaça para diabéticos.
Já se fizeram muitos filmes de lobisomem. Em todos,
ele morre no fim, e o roteirista nunca lhe concede a
dádiva de uma lágrima em sua última agonia. Ninguém se comove com o fato de que o infeliz, por ter
sido mordido por um lobo, transformou-se num deles
e, daí, ficou proibido de ser recebido em casas de
família. Mas que culpa teve nisso?
Ruy Castro, Folha de S. Paulo, 27/10/2024