Leia o texto a seguir para responder à questão.
O zelador do labirinto
Tem também a história do zelador do
labirinto. Todos os dias ele saía de casa cedo,
com sua marmita, e entrava no labirinto. Seu
trabalho era percorrer todo o labirinto,
inspecionando as paredes e o chão, vendo onde
precisava um retoque, talvez uma mão de tinta
etc.
Era um homem metódico. Pela manhã,
fazia a ronda do labirinto, anotando tudo que
havia para ser consertado, depois saía do
labirinto, almoçava, descansava um pouquinho, e
entrava de novo no labirinto, agora com o
material de que necessitaria para seu trabalho.
Quando não havia nada para ser consertado, ele
apenas varria todo o labirinto e, ao anoitecer, ia
para casa.
Um dia, enquanto fazia a sua ronda, o
zelador encontrou um grupo de pessoas
apavoradas. Queriam saber como sair dali. O
zelador não entendeu bem.
— Como sair?
— A saída! Onde fica a saída?
— É por ali — apontou o zelador,
achando estranha a agitação do grupo.
Mais tarde, no mesmo dia, enquanto
varria um dos corredores, o zelador encontrou o
mesmo grupo. Não tinham encontrado a saída.
Estavam ainda mais apavorados. Alguns
choravam. Alguém precisava lhes mostrar a
saída!
Com uma certa impaciência, o zelador
começou a dar a direção. Era fácil.
— Saiam por ali e virem à esquerda.
Depois à direita, depois à esquerda, esquerda
outra vez, direita, direita, esquerda...
— Espere! — gritou alguém. — Ponha
isso num papel.
Sacudindo a cabeça com divertida
resignação, o zelador pegou seu caderno de notas
e o toco de lápis e começou a escrever.
— Deixa ver. Esquerda, direita, esquerda,
esquerda... Hesitou. — Não, direita. É isso.
Direita, direita, esquerda... Ou direita outra vez?
O zelador atirou o papel e o lápis no chão
como se estivessem pegando fogo. Saiu
correndo, com todo o grupo atrás. Também
estava apavorado. Aquilo era terrível. Ele nunca
tinha se dado conta de como aquilo era terrível.
Corredores davam para corredores que davam
para corredores que davam numa parede. Era
preciso voltar pelos mesmos corredores, mas
como saber se eram os mesmos corredores? A
saída! Onde ficava a saída?
A administração do labirinto teve que
procurar um novo zelador, depois que o
desaparecimento do outro completou um mês.
Podiam adivinhar o que tinha acontecido. O novo
zelador não devia ter muita imaginação. Era
preferível que nem soubesse ler e escrever. E em
hipótese alguma devia falar com estranhos.
VERISSIMO, L. F. Verissimo antológico: meio
século de crônicas, ou coisa parecida. São Paulo:
Objetiva, 2020.