Leia o texto para responder à questão.
Vivemos num presente alargado, no qual “viver no momento
é a paixão dominante”, na definição de Christopher Lasch. O
presente se torna alargado à mesma medida que o tempo corre
veloz. Essa contradição só pode ser explicada pelo fato de que a
aceleração tecnológica, conquanto implique “uma diminuição no
tempo necessário para realizar processos cotidianos de produção
e reprodução” (o que deveria levar a uma abundância de tempo
livre), levou ao acúmulo quantitativo de atividades. Quanto mais
a aceleração tecnológica avançou, mais trabalho se acumulou e
menos tempo livre sobrou. Se já não temos uma vida profissional,
mas especializações, se já não temos espaço para contemplar os
locais que cruzamos, mas uma observação dirigida por algoritmos
de afinidades eletivas, já deveríamos saber que a aceleração
tecnológica levou aos grilhões da hiperconectividade, que
demandam sempre nosso engajamento.
O resultado desse processo foi que a contínua aceleração do
tempo social tornou o espaço muitas vezes indiferente, um mero
detalhe, um pano de fundo que sustenta a virtualidade das
relações. Ante a aceleração da vida, concebemos o espaço como
um empecilho para aquilo que realmente queríamos fazer. “Ter
que ir” e “ter que visitar” se tornaram tarefas “torturantes”, uma
vez que basta uma chamada de vídeo para tirar a tarefa da
frente. O isolamento tornou-se comum e mesmo os locais que
sustentavam a ação da experiência subjetiva aparecem agora
como lugares sem histórias, cada vez mais homogeneizados.
BARROS, Douglas. O que é identitarismo? São Paulo: Boitempo, 2024,
edição digital. Adaptado.