Texto para a questão
O FUTURO SAQUEADO
(adaptado)
Mario Sergio Cortella
Estamos vivendo um saque antecipado do
futuro! Parece alarmista, ou até piegas, mas continuamos
eliminando e furtando as condições de existência para as
próximas gerações depois da nossa. Essa é uma
situação inédita, pois, durante toda a trajetória evolutiva
e histórica da espécie, a grande preocupação de
qualquer comunidade humana vinha sendo garantir a
continuidade e a melhoria das estruturas de manutenção
da vida para os descendentes.
A questão central nesse saque não é
exclusivamente a degradação do meio-ambiente e dos
recursos naturais, dado que, ainda que de forma
incipiente, disso estamos cuidando.
O centro da problemática é, isso sim, os adultos
admitirmos e promovermos o apodrecimento da
esperança nas novas gerações. A elas vimos negando o
futuro, e, com facilidade, ouvem de nós aterradores
prognósticos ("Não haverá futuro! Não haverá emprego!
Não haverá natureza!"). Também desqualificamos o
presente e o passado delas ("Isso não é vida; vocês não
sabem brincar! Vocês não tiveram infância! Isso que
vocês comem é só porcaria! Isso não é música, é
barulho!").
A tudo isso damos um ar de fatalidade que indica
a crença na impossibilidade de alterar essa rota coletiva;
por isso, as novas gerações começam a acreditar no
mais ameaçador perigo para a convivência gregária e a
solidariedade: o individualismo exacerbado. A regra
passa a ser a exaltação descontextualizada do "carpe
diem" escrito por Horácio nas suas "Odes"; deixa de ser
um "aproveita o dia", entendido pelo poeta latino como
sinal de equilíbrio e virtude moderadora, e passa a ser
um "curta tudo o que puder, no menor tempo possível,
pois só há um horizonte: a vida é breve e sem sentido, e
nada mais nos resta a não ser o momento".
Não é à toa que haja um aumento
desproporcional de jovens (cada vez com menos idade)
que desvalorizam a vida, começando pelo desprezo pela
própria integridade física e mental; são vítimas fáceis das
drogas fatais e do álcool, que proporcionam felicidade
(ou fuga) momentânea. E, sem futuro, o presente fica
insuportável; o grande Dostoiévski, autor russo,
escreveu em seu livro "O Idiota" que "não foi quando
descobriu a América, mas quando estava prestes a
descobri-la que Colombo se sentiu feliz".
Vive-se, além de tudo, uma sociedade
consumista. Nela, a mínima possibilidade de sentido
encontra-se na posse, mesmo que circunstancial, de
objetos que são anunciados como sendo os portadores
do segredo da felicidade. Crianças bem pequenas
perderam a capacidade de brincar sozinhas com um
maravilhoso universo imaginativo e abstrato, no qual
nada material precisava adentrar; agora, essas crianças
têm "necessidades" que nós, adultos, criamos nelas e
que são veiculadas por uma mídia que nem sempre se
preocupa com o papel formador que desempenha.
FONTE: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq3011200027.htm