Ela me incomoda tanto que fiquei oco. Estou oco desta
moça. E ela tanto mais me incomoda quanto menos reclama.
Estou com raiva. Uma cólera de derrubar copos e pratos e
quebrar vidraças. Como me vingar? Ou melhor, como me
compensar? Já sei: amando meu cão que tem mais comida do que
a moça. Por que ela não reage? Cadê um pouco de fibra? Não, ela
é doce e obediente.
Essa moça não sabia que ela era o que era, assim como um
cachorro não sabe que é cachorro. Daí não se sentir infeliz. A
única coisa que queria era viver. Não sabia para quê, não se
indagava.
Eu poderia resolver pelo caminho mais fácil, matar a
menina-infante, mas quero o pior: a vida. Os que me lerem,
assim, levem um soco no estômago para ver se é bom. A vida é
um soco no estômago.
Clarice Lispector. A hora da estrela.
Rio de Janeiro: Rocco, 1998 (com adaptações).