O individualismo e as instituições
Quando as instituições são frágeis e não funcionam, podem prevalecer as amarras
da prepotência e do oportunismo violento. Na falta de normas legais que funcionem, na falta
de uma representação atuante e legitima do Estado na vida social, a condição da "terra sem
lei" tende à barbárie.
Exemplo disso forneceu o cinema norte-americano quando, em meados do século
passado, inundou o mundo e a imaginação popular com filmes do gênero "western", supostos
documentários da conquista do oeste. Uma situação padrão era representada nesses filmes:
na pequena e remota cidade recém-formada, o poder local era manipulado por malfeitores
poderosos, que submetiam aos seus interesses o xerife e a o juiz. A "lei" servia assim de
fachada para o império da autocracia e do crime, e a impunidade ameaçava ser eterna.
Mas eis que chegava o "mocinho": um homem vindo não se sabe de onde, solitário,
lacônico, hábil no manejo das armas, intrépido, capaz de enfrentar e derrotar sozinho os
poderosos locais o que fazia com bravura e frieza, até deixar a cidade pacificada e sumir para
sempre no horizonte, sob o olhar dos cidadãos agradecidos.
A "mensagem" desses filmes? Haveria, dentro de indivíduos especiais, um impulso
natural para a justiça e a virtude, capaz de mudar a ordem das coisas. As virtudes inatas dessa
liderança singular refundariam as instituições suprimidas. A figura de um herói solitário estaria
na base da legitimação da ordem pública, quando esta fosse comprometida. Não deixa de ser
uma forma de atribuir a uma liderança pessoal a missão de promover as instituições que
tenham por escopo o bem público. Dito de outro modo: a moralidade desejável das
instituições sociais já estaria presente, em gérmen, no indivíduo essencialmente virtuoso,
capaz de reconduzir uma comunidade a um patamar da civilização.
(Bruno Rosa de Alcântara, a editar)