Festa de aniversário
Os ingredientes são: uma porção de caos, duas de
confusão e uma pobre mãe exausta – tudo
misturado com um cão latindo e balões
estourando. Uma boa festa de aniversário deve
ter no mínimo vinte crianças, sendo uma de colo,
que chora o tempo todo, uma maior do que as
outras, chamada Eurico, que bate nas menores e
acabará mordida pelo cachorro, para a secreta
satisfação de todos; e uma de rosto angelical,
olhar límpido e vestido impecável, que
conseguirá sentar em cima do bolo de chocolate.
Esta deve se chamar Cândida.
Boa festa de aniversário é aquela em que, depois
que todos foram embora, a mãe do aniversariante
examina os destroços com o mesmo olhar que
Napoleão lançou sobre os campos de Waterloo
depois da batalha, e fica indecisa entre chorar,
fugir de casa ou rolar pelo tapete dando
gargalhadas histéricas. Desiste de rolar pelo
tapete porque o tapete está coberto de restos de
comida. É indispensável que no fim da festa
sobre uma criança que ninguém sabe como foi
parar embaixo do sofá.
– Como é seu nome, meu bem?
– Cândida.
É ela de novo. E as grandes camadas de chocolate
no seu traseiro não estão ajudando o tapete. A
mãe do aniversariante decide chorar. Melhor
ainda são os pais que vêm buscar as crianças e
ficam para tomar uma cervejinha. A noite já vai
alta, os filhos dormem nos seus colos com a boca
aberta, os balões coloridos presos ao dedo de
cada criança fazem um balé em câmara lenta no
meio da sala, e os pais não vão embora. A mãe
do aniversariante não sente mais as pernas.
Apalpa um joelho, para ver se a perna ainda está
lá. Fantástico: está. E então ouve, incrédula, a
voz do marido:
– Carminha, traz mais uma cerveja para o Dr.
Ariel...
Será que o inconsciente não sabe que ela teve que
correr o dia inteiro? Que encheu os balões com
seus próprios pulmões? Que fez a torta de chocolate com a sua própria receita? Que por
pouco não estrangulou 20 crianças com as suas
próprias mãos? Boa festa de aniversário é a que
acaba com a mãe do aniversariante querendo
estrangular o próprio marido. [...]
Uma boa festa de aniversário deve ter guaraná
morno e show de mágica. O mágico deve ser
arranjado à última hora e não pode ser muito
bom. A mãe do aniversariante deve contratar o
mágico na certeza de que, depois de cantarem o
“Parabéns a você”, comerem a torta de chocolate
e beberem o guaraná morno, as crianças não terão
mais o que fazer, perderão o interesse e a festa
será um fracasso. É preciso um show para
entretê-las. [...] Deve ser uma luta para reunir as
crianças em torno do mágico. Antes que o
espetáculo acabe, as crianças estarão
participando ativamente de cada truque, espiando
para dentro da manga, descobrindo todos os
compartimentos secretos e desmoralizando por
completo o mágico, que no dia seguinte mudará de profissão. Em seguida, a mãe do
aniversariante tentará organizar um calmo e
instrutivo jogo de charadas, mas ninguém lhe
dará bola. As crianças agora brincam de Zorro, e
o Eurico, montado no cachorro, faz um rápido
“Z” com um jato de Coca-Cola na parede da
sala.
Uma boa festa de aniversário deve terminar
depois da meia-noite, quando o último pai sai
arrastando a última criança, e a criança, o último
balão, que estoura na saída. A mãe do
aniversariante deve olhar para o marido, suspirar
e declarar que está morta. Que irá direto para a
cama e só pensará em arrumar a casa amanhã. Ou
daqui a uma semana, sei lá. E só então se
lembrará:
– Meu Deus, a Cândida! Temos que levar a
Cândida em casa.
Uma boa festa de aniversário deve terminar com
uma criança sonolenta sendo entregue em casa
com a recomendação:
– Olhe que ela está que é só chocolate.
VERISSIMO, L. F. Ed Mort e outras histórias.
Porto Alegre: L&PM Editores,
1985. (Adaptado).