Esquecer é uma função normal da memória
Esquecer-se de coisas no dia a dia pode ser um pouco
irritante ou, à medida que envelhecemos, um pouco
assustador. Mas é parte da função normal da memória,
permitindo-nos seguir em frente ou abrir espaço para
novas informações.
As nossas memórias não são, na verdade, tão confiáveis
quanto pensamos. Mas que nível de esquecimento é
normal? Analisemos as evidências.
Quando nos lembramos de algo, nossos cérebros
precisam aprender a memória, mantê-la segura e
recuperá-la quando necessário. E o esquecimento ocorre
em qualquer parte desse processo.
Ao receber informação sensorial pela primeira vez, o
cérebro não processa tudo. Assim, usamos nossa
atenção para filtrar as informações importantes.
Isso significa que, quando codificamos nossas
experiências, codificamos principalmente aquilo em que
prestamos atenção.
Quando alguém se apresenta em um jantar enquanto
prestamos atenção em outra coisa, não codificamos o
nome. É uma falha de memória, mas é totalmente normal
e bastante comum.
Hábitos e estrutura, como sempre colocar as chaves no
mesmo lugar para que não tenhamos que codificar sua
localização, ajudam-nos a contornar o problema.
Ensaiar também é importante para a memória. As
memórias que mais duram são aquelas que ensaiamos e
recontamos, embora, muitas vezes, adaptamo-las a cada
releitura e, provavelmente, nos lembremos do último
ensaio em vez do evento real em si.
Na década de 1880, o psicólogo alemão Hermann
Ebbinghaus ensinou a um grupo de pessoas sílabas sem
sentido, que elas nunca tinham ouvido antes, e analisou
o quanto lembraram delas ao longo do tempo. Ele
mostrou que, sem ensaio, a maior parte da nossa
memória desaparece dentro de um ou dois dias.
No entanto, as pessoas que ensaiaram as sílabas,
repetindo-as em intervalos regulares, puderam lembrar
por mais de um dia o número de sílabas.
Mas essa necessidade de ensaio pode ser outra causa
do esquecimento diário. Quando vamos ao
supermercado, codificamos onde estacionamos o carro,
mas quando entramos na loja, ocupamo-nos de outras
coisas que precisamos lembrar, como nossa lista de
compras. Como resultado, esquecemos a localização do
carro.
Outra coisa que nos revela característica do
esquecimento: podemos esquecer informações
específicas, mas lembrar da essência.
Quando saímos da loja e percebemos que não lembramos onde estacionamos o carro, provavelmente
lembramos se era à esquerda ou à direita da porta da
loja, no limite do estacionamento ou mais para o centro.
E, assim, em vez de ter que percorrer todo o
estacionamento até encontrá-lo, fazemos a busca em
uma área relativamente definida.
À medida que as pessoas envelhecem, elas se
preocupam mais com a memória. É verdade que nosso
esquecimento se torna mais pronunciado.
Quanto mais tempo vivemos, temos mais experiências e
lembranças. Mas as experiências têm muito em comum,
o que significa que pode se tornar complicado separar
esses eventos em nossa memória.
Se você só passou férias na praia na Espanha uma vez,
você se lembrará com grande clareza. Agora, se você já
foi de férias para a Espanha muitas vezes, visitou
diversas cidades em momentos diferentes, lembrar se
algo aconteceu na primeira vez em Barcelona ou na
segunda, ou se seu irmão estava nas férias em Maiorca
ou Ibiza, torna-se mais desafiador.
A sobreposição de memórias, ou interferência, atrapalha
a recuperação de informação. Imagine arquivar
documentos no seu computador. Ao iniciar o processo,
você tem um sistema claro, em que saberá onde
encontrar cada documento que guardar.
Mas à medida que mais e mais documentos entram, fica
difícil decidir a qual das pastas ele pertence. Você
também começa a colocar muitos documentos em uma
pasta porque todos eles estão relacionados a um mesmo
item.
Isso significa que, com o tempo, torna-se difícil recuperar
o documento certo quando precisar dele, seja porque
você não consegue saber onde o colocou, ou porque
sabe onde ele deve estar, mas há muitas outras coisas
para pesquisar.
Mas não esquecer também pode ser perturbador. O
transtorno de estresse pós-traumático é um exemplo de
uma situação em que as pessoas não conseguem
esquecer. A memória é persistente, não desaparece e,
muitas vezes, interrompe a vida diária.
Há experiências semelhantes com memórias
persistentes no luto ou em casos de depressão,
condições que dificultam o esquecimento de informações
negativas, quando esquecer seria extremamente útil.
Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/
articles/c72gx0x7zl1o.adaptado.