O humor deve visar à crítica, não à graça, ensinou Chico
Anysio, o humorista popular. E disse isso quando lhe solicitaram
considerar o estado atual do riso brasileiro. Nos últimos anos de
vida, o escritor contribuía para o cômico apenas em sua porção
de ator, impedido pela televisão brasileira de produzir textos.
E o que ele dizia sobre a risada ajuda a entender a acomodação de muitos humoristas contemporâneos. Porque, quando eles
humilham aqueles julgados inferiores, os pobres, os analfabetos,
os negros, os nordestinos, todos os oprimidos que parece fácil
espezinhar, não funcionam bem como humoristas. O humor deve
ser o oposto disto, uma restauração do que é justo, para a qual
desancar aqueles em condições piores do que as suas não vale.
Rimos, isso sim, do superior, do arrogante, daquele que rouba
nosso lugar social.
O curioso é perceber como o Brasil de muito tempo atrás
sabia disso, e o ensinava por meio de uma imprensa ocupada em
ferir a brutal desigualdade entre os seres e as classes. Ao percorrer o extenso volume da História da Caricatura Brasileira (Gala
Edições), compreendemos que tal humor primitivo não praticava
um rosário de ofensas pessoais. Naqueles dias, humor parecia ser
apenas, e necessariamente, a virulência em relação aos modos
opressivos do poder.
A amplitude dessa obra é inédita. Saem da obscuridade os
nomes que sucederam ao mais aclamado dos artistas a produzir
arte naquele Brasil, Angelo Agostini. Corcundas magros, corcundas gordos, corcovas com cabeça de burro, todos esses seres
compostos em aspecto polimórfico, com expressivo valor gráfico, eram os responsáveis por ilustrar a subserviência a estender-
-se pela Corte Imperial. Contra a escravidão, o comodismo dos
bem-postos e dos covardes imperialistas, esses artistas operavam
seu espírito crítico em jornais de todos os cantos do País.
(Carta Capital.13.02.2013. Adaptado)