Quando me proponho a analisar a complexidade da
identidade da educação brasileira, desde a sua formação
histórica, passando por seus determinantes políticos e filosóficos, até chegar aos processos curriculares e à organização
didática e administrativa da escola, acabo percebendo que
deixamos de lado dimensões antropológicas essencialmente
humanas, e que hoje são desafios e urgências, analíticas e
propositivas. Uma das mais urgentes dimensões a se considerar é a questão da afetividade, a qualidade social e subjetiva das relações pessoais. Não assumimos como importantes
ou até mesmo como consideráveis as questões que envolvem a educação afetiva e emocional.
Afetividade significa educar para a sensibilidade, educar para ter imperativos éticos referentes a outras pessoas,
à natureza, à diversidade da vida e do mundo, aos valores,
às artes, aos conhecimentos e, sobretudo, à polifonia das
personalidades, das diferentes pessoas, culturas, identidades, grupos e movimentos que nos cercam. A vida, em si,
é uma grande epifania de vivências, de desabrochamentos
de experiências, de vitalidades, emoções, alegrias, perdas e
achados!
Educação afetiva é a criação de uma atmosfera vivencial
de sensibilidades, de gestos elevados, esteticamente belos e
bons, como aqueles que cultivamos como essenciais. Praticar
a palavra acolhedora, a celebrar os encontros, a pedir desculpas pelos erros, pelas contradições, pelos desvios padrões
que acontecem entre nossos desejos, nossas necessidades
e nossos atos reais é sempre cultivar a paz, a generosidade,
a esperança, o bom trato, a convivência pluralista, diversa e
amorosa.
Educação afetiva é erigir alguns valores como “sagrados” para a convivência familiar, escolar e social, tais como
a disposição para o trabalho em grupo, a decisão consultiva,
as escolhas voltadas ao bem de todos, a paz e a democracia, o respeito à dignidade de toda pessoa, a condenação
de toda forma de violência, simbólica ou real, a condenação
firme de toda crueldade, de toda covardia, de toda destruição predatória do ecossistema, dos animais, das flores, do
meio ambiente, da natureza. Ter sobretudo o sagrado amor à
vida, proteger os que precisam de mais afeto, de mais proteção, combater todo sofrimento humano, notadamente aquele socialmente produzido, para que possa ser socialmente
transformado.
Educação afetiva é mudar o olhar para com as crianças,
os adolescentes, os jovens. É ser exemplo, é convencer pela
palavra e testemunhar com as atitudes. Como cantava o
poeta Almir Sater, com seu amigo Renato Teixeira: “É preciso
amor pra poder pulsar, é preciso paz pra poder sorrir, é preciso a chuva para florir!”. Observem bem, a chuva está caindo,
a natureza está fazendo a sua parte! Faltam as outras duas
disposições para a vida ser melhor!
(César Nunes. “A educação afetiva e a ética da convivência amorosa”.
In: Da educação que ama ao amor que educa. Adaptado)