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Insônia
A casa estala de noite. São as coisas se
assentando. De dia as coisas ficaram em
suspenso, assustadas com a gente. Há um espelho
no corredor que já se viu mil vezes em mil
pedaços. Essas crianças! De noite as coisas
suspiram aliviadas. Isso que você ouve quando
acorda no meio da noite é o silêncio que as coisas
trocam, como um código. Nada a ver com você
ou sua espécie. Todo homem que sai da sua cama
e caminha no escuro é um intruso em sua casa e
merece a topada. Essa sua sensação, quando
acende a luz da sala, de que está interrompendo
alguma coisa. São as poltronas e o sofá fazendo
sala, como adultos repassando o dia depois que
as crianças foram dormir. Por que você não está
na cama, menino? De noite a sua casa não é sua.
E range como um navio.
Toda casa tem pelo menos um rato, nem
que seja uma lagartixa. Tem um sótão e um
porão. Pode ser apartamento, tem um sótão e um
porão. As pessoas têm um sótão e um porão. Um
lugar para guardar postais e botões dourados e o
rosto da primeira namorada que disse que
deixava você beijar na boca, sim, e apertou a
boca, e um lugar escuro onde os seus detritos se
amontoam. Você é uma casa que mal conhece,
você tem quartos em que nunca entrou. De noite
as coisas também se assentam dentro de você.
Mesmo que você sonhe com a destruição do
mundo ou com um filho se afogando. Em
silêncio, as coisas se ajeitam dentro de você, as
suas vigas e tábuas, mesmo que você acorde
trincando os dentes. E confesse: em algum lugar
dentro de você também existe um rato.
Esse zumbido não é a geladeira, é um
rumor subterrâneo, é a seiva do mundo, o barulho
da máquina. Quando a humanidade desaparecer,
as coisas do mundo também dirão, em silêncio,
até que enfim, e a poeira assentará. Fomos um
leve distúrbio na paz das coisas. Exigimos um
sentido do mundo. A nossa casa, o nosso tempo,
as nossas coisas. E nem o nosso corpo nos pertence. O coração bate como os tambores do
jângal num filme com o Robert Taylor, uma
mensagem obscura, outro código misterioso. O
terrível não é que as coisas não têm sentido, é que
não precisam ter sentido. O único consolo pela
nossa mortalidade, que também não é nossa, é
que ela nos desobriga de entender o universo.
Assim é melhor. Todo mundo morre, os ossos
encontram, finalmente, sua melhor posição —
morrer é nunca mais se queixar da coluna — e as
coisas ficam na sua, sem explicações. Os relógios
funcionarão até que a última corda acabe, ou a
última pilha pife, e só os bichos no zoológico
sentirão a falta do homem, pois ninguém lhes
levará comida.
Ouço um ruído diferente. Ou é um rato
muito grande ou um ladrão muito pequeno. Mas
não levanto mais da cama. Já fui três vezes até a
cozinha, já acendi e apaguei a luz não sei quantas
vezes, a casa ainda perde a paciência e me
expulsa. Melhor dormir. O navio sabe para onde
vai.
VERISSIMO, L. F. Verissimo antológico —
meio século de crônicas, ou coisa parecida. São
Paulo: Objetiva, 2020.