A linguagem poética
Em relação à prosa comum, o poema se define de certas
restrições e de certas liberdades. Frequentemente
se confunde a poesia com o verso. Na sua origem, o
verso tem uma função mneumotécnica (= técnica
de memorizar); os textos narrativos, líricos e mesmo
históricos e didáticos eram comunicados oralmente,
e os versos – repetição de um mesmo número de
sílabas ou de um número fixo de acentos tônicos e
eventualmente repetição de uma mesma sonoridade
(rima) – facilitavam a memorização. Mais tarde o verso
se tornou um meio de enfeitar o discurso, meio que se
desvalorizou pouco a pouco: a poesia contemporânea
é rimada, mas raramente versificada. Na verdade o
valor poético do verso decorre de suas relações com o
ritmo, com a sintaxe, com as sonoridades, com o sentido
das palavras. O poema é um todo.
(…)
Os poetas enfraquecem a sintaxe, fazendo-a ajustar-se
às exigências do verso e da expressão poética. Sem se
permitir verdadeiras incorreções gramaticais, eles se
permitem “licenças poéticas".
Além disso, eles trabalham o sentido das palavras em
direções contrárias: seja dando a certos termos uma
extensão ou uma indeterminação inusitadas; seja
utilizando sentidos raros, em desuso ou novos; seja
criando novas palavras.
Tais liberdades aparecem mais particularmente na
utilização de imagens. Assim, Jean Cohen, ao estudar
o processo de fabricação das comparações poéticas,
observa que a linguagem corrente faz espontaneamente
apelo a comparações “razoáveis" (pertinentes)
do tipo “a terra é redonda como uma laranja" (a
redondeza é efetivamente uma qualidade comum à
terra e a uma laranja), ao passo que a linguagem poética fabrica comparações inusitadas tais como: “Belo
como a coisa nova/Na prateleira até então vazia" (João
Cabral de Melo Neto). Ou, então estranhas como: “A
terra é azul como uma laranja" (Paul Éluard).
Francis Vanoye