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A preguiça
Tenho uma simpatia visceral pela
preguiça. Aquele bicho que passa a vida
pendurado pelo rabo, de cabeça para baixo, e se
dedica à contemplação das coisas pelo inverso.
Há outros animais contemplativos na natureza,
mas nenhum com tanta convicção da própria
inutilidade. O boi, por exemplo, é lento e
filosófico, mas há uma certa empáfia na sua
ponderação. O boi tem o ar de quem está só
esperando que lhe peçam uma opinião. O boi tem
teses sobre a vida, é que até hoje ninguém se
interessou em saber. O hipopótamo é outro falso
acomodado. Só o fato de ser anfíbio denuncia
uma inquietação secreta. O hipopótamo tinha
outros planos. O elefante? Um megalomaníaco.
Depressivo. Não passou da fase anal retentiva, o
que se manifesta em excessivos cuidados com a
higiene e em certos pudores irracionais. Um
elefante nunca morre na frente dos outros, e o que
é mais íntimo do que a morte? A vida é uma
provação para o elefante.
A preguiça não quer nem saber. A
preguiça é um macaco que deu errado, um
equívoco da evolução, e ela se esforça para não
chamar a atenção para o erro. Se me descobrirem,
me extinguem. Uma vez perguntaram a Darwin
sobre a preguiça e ele fingiu que procurava um
lápis embaixo da mesa. Todo animal tem uma
função no universo. Pode ser a mais prosaica,
como comer formiga, mas tem. Menos a
preguiça. A preguiça não serve para nada. É uma
espectadora do drama da criação. E mesmo como
espectadora é incompetente, pois vê tudo de
cabeça para baixo. Ao contrário. O Sol não se
levanta para a preguiça, ele cai do horizonte
como um ovo da galinha. O céu é o chão e o chão
é o céu da preguiça. O espantoso é que com tanto
sangue lhe subindo à cabeça a preguiça não
tivesse desenvolvido o melhor cérebro do mundo
animal.
Há quem diga que desenvolveu, que a
preguiça já pensou em tudo e resolveu que não
valia a pena. Com duas semanas de existência,
com o sangue fazendo o cérebro crescer duas
vezes mais depressa do que o de qualquer outra
espécie, a preguiça já tinha esquematizado toda a
progressão da vida na Terra, desde o homemmacaco até o Clóvis Bornay, desde a roda até o
foguete e desde o tambor tribal até a ONU. E
desistiu, antes de começar. Hoje o sangue lhe
sobe à cauda, a preguiça não quer nem saber.
Alguns frutos que estiverem à mão, pensamentos
leves... Para a preguiça nenhuma crise é
novidade: o mundo está de pernas para o ar há
muito tempo.
VERISSIMO, L. F. Verissimo antológico —
meio século de crônicas, ou coisa parecida. São
Paulo: Objetiva, 2020.