Texto 3
Um pé de milho
Os americanos, através do radar, entraram em contato com a
Lua, o que não deixa de ser emocionante. Mas o fato mais
importante da semana aconteceu com o meu pé de milho.
Aconteceu que, no meu quintal, em um monte de terra trazida
pelo jardineiro, nasceu alguma coisa que podia ser um pé de
capim – mas descobri que era um pé de milho. Transplantei-o
para o exíguo canteiro da casa. Secaram as pequenas folhas;
pensei que fosse morrer. Mas ele reagiu. Quando estava do
tamanho de um palmo, veio um amigo e declarou
desdenhosamente que aquilo era capim. Quando estava com
dois palmos, veio um outro amigo e afirmou que era cana.
[...]
Anteontem aconteceu o que era inevitável, mas que nos
encantou como se fosse inesperado: meu pé de milho pendoou.
Há muitas flores lindas no mundo, e a flor de milho não será a
mais linda. Mas aquele pendão firme, vertical, beijado pelo
vento do mar, veio enriquecer nosso canteirinho vulgar com
uma força e uma alegria que me fazem bem. É alguma coisa
que se afirma com ímpeto e certeza. Meu pé de milho é um belo
gesto da terra. Eu não sou mais um medíocre homem que vive
atrás de uma chata máquina de escrever: sou um rico lavrador
da rua Júlio de Castilhos.
BRAGA, Rubem. Um pé de milho. Rio de Janeiro: José Olympio, 1948.
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