Na primeira infância, as experiências com a dor pareciam não ficar tão marcadas em sua mente. Não que você lembre.
Então, quando você corre, quando você pula, quando você brinca, você não tem medo. E às vezes, na vida adulta, você sonhava
em recuperar aquele sentimento ingênuo, sem fobias e sem receio. Mas com o passar do tempo tinha a impressão de que as
possibilidades de sentir dor iam se ampliando e limitando sua liberdade. Viver passou a ser uma questão de evitar a dor a
qualquer custo. Numa espécie de encarceramento voluntário, você vai sendo acossado dia após dia pelo medo do desconforto.
No entanto, aos quatro anos, quando prenderam seus dedos numa porta, talvez não seja possível dizer que sua fobia de dor
tenha começado ali. Mas foi aos quatro anos que você tomou consciência plena dela. Tomou consciência da trajetória da dor:
da demora em senti-la depois do ato traumático, porque a dor nunca é instantânea. A dor ressoa. Pulsa no ritmo agudo dos
batimentos cardíacos. Toda a sua vida se resume naquele pedaço do seu corpo que agora grita.
(TENÓRIO, Jeferson. O avesso da pele. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. p. 70. Fragmento.)