A Fala Vegetal
Não é mistério para os entendidos que há uma
linguagem das plantas, ou, para ser mais exato, que a
cada planta corresponde uma linguagem. Como a
variedade de plantas é infinita, faz-se impossível ao
entendimento, por muito atilado que seja, captar todas
as vozes de vegetais. E só os mais perspicazes entre
os humanos conseguem entender a conversa entre
duas plantas de espécies diferentes: cada uma usa o
seu vocabulário, como por exemplo num diálogo em
que A falasse em espanhol e B respondesse em
alemão.
Levindo, jardineiro experiente, chegou a dominar as
linguagens que se entrecruzavam no jardim. Um leigo
diria que não se escutava nada, salvo o zumbir de
moscas e besouros, mas ele chegava a distinguir o
suspiro de uma violeta, e suas confidências ao amorperfeito não eram segredo para os ouvidos daquele
homem.
Até que um dia as plantas desconfiaram que estavam
sendo espionadas e planejaram a conspiração de
silêncio contra Levindo. Passaram a comunicar-se por
meio de sinais altamente sigilosos, renovados a cada
semana. Em vão o jardineiro se acocorava a noite
inteira no jardim, na esperança de decifrar o código.
Enlouqueceu.
Perdendo o emprego, as coisas não voltaram à
normalidade. As plantas haviam esquecido o hábito de
conversar direito. Já não se entendiam, brigavam de
haste contra haste, muitas se aniquilaram em combate.
O jardim foi invadido pelas cabras, que pastaram o
restante da vegetação.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Contos plausíveis. São
Paulo: Companhia das Letras, 2012.
Com base no texto "A fala vegetal", assinale a
alternativa em que a colocação pronominal NÃO está
de acordo com a norma-padrão.