Por que Nimesulida, remédio campeão de vendas no
Brasil, é proibido nos EUA e parte da Europa
Por que a nimesulida está proibida em outros
países?
Como citado no início da reportagem, a nimesulida
nunca foi aprovada para venda em locais como o Reino
Unido e a Alemanha.
Além disso, ela foi retirada de circulação em diversos
países, como Estados Unidos, Canadá, Japão, Suécia,
Holanda, Dinamarca, Bélgica, Irlanda, Espanha e
Finlândia.
Desses, o caso da Irlanda foi talvez o que ganhou mais
notoriedade.
Em 2007, o Conselho Irlandês de Medicamentos
anunciou a suspensão imediata da venda de nimesulida
após ter acesso a informações sobre casos de falência
hepática fulminante, com necessidade de transplante,
entre pessoas que usaram esse fármaco.
Um documento disponível no site da Organização
Mundial da Saúde (OMS) indica que, entre 1995 (quando
a nimesulida foi aprovada na Irlanda) e 2007 (quando foi
suspensa), esse país notificou 53 casos de danos graves
ao fígado.
A decisão das autoridades irlandesas motivou a abertura
de uma investigação mais ampla na Agência Europeia
de Medicamentos (EMA), o órgão responsável pela
vigilância sanitária na União Europeia.
Um relatório produzido no comitê responsável pelo
inquérito concluiu que "os benefícios da nimesulida
continuam a superar os riscos".
No entanto, a EMA decidiu restringir o uso dela a alguns
casos específicos.
Atualmente, na União Europeia, essa medicação segue
disponível, a depender do critério de cada país, mas só
está indicada para o tratamento de dor aguda e
dismenorreia (a popular cólica menstrual).
E, mesmo nesses casos, ela entra apenas como a
segunda linha terapêutica, quando outras opções não
funcionaram.
Mas e no Brasil? Por que esse fármaco está amplamente
disponível?
Marise pondera que nem sempre o que acontece num
determinado país se repete em outros.
"Precisamos levar em conta um fator importante, que é a
genética populacional. Alguns genes específicos fazem
nosso corpo responder de formas diferentes ao mesmo
medicamento", explica ela.
"Então pode ser que, para algumas pessoas, esse perfil
genético favoreça a toxicidade, enquanto para outras gere um efeito terapêutico mais potente."
Ou seja, antes de lançar uma proibição generalizada, é
preciso conhecer as particularidades de cada região — e
entender como cada população reage a uma certa
substância.
Algo similar acontece com a dipirona, que é livremente
usada no Brasil, mas está proibida em outras partes do
mundo.
Mesmo diante de possíveis variabilidades populacionais,
Paraná entende que órgãos como a Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (Anvisa) precisam fazer uma revisão
das normas sobre o uso de antiinflamatórios no país.
"É necessário ter protocolos mais rígidos, com uma
venda limitada de caixas e sempre mediante a
apresentação de receita médica", sugere o
hepatologista.
"Precisamos também de programas de educação dos
profissionais de saúde para conscientizar sobre o uso
desses remédios", complementa ele.
Procurada pela BBC News Brasil, a Anvisa reforçou que
a nimesulida "é um medicamento sujeito à prescrição
médica".
"Entre as contraindicações, a bula traz restrição para
'histórico de reações de hipersensibilidade ao ácido
acetilsalicílico ou a outros antiinflamatórios não
esteroidais; histórico de reações hepáticas (do fígado) ao
produto; pacientes com úlcera péptica (úlceras no
estômago ou intestino) em fase ativa, ulcerações
recorrentes (úlceras que vão e voltam) ou tenham
hemorragia no trato gastrintestinal (sangramento no
estômago e/ou intestinos); pacientes com distúrbios de
coagulação graves; pacientes com insuficiência cardíaca
grave (mau funcionamento grave do coração); pacientes
com mau funcionamento dos rins grave e pacientes com
mau funcionamento do fígado'", diz a agência em nota
enviada à reportagem.
O texto também lembra que o uso desse remédio requer
"cuidados que devem ser observados em pacientes com
problemas de fígado".
"Reações adversas hepáticas (do fígado) relacionadas à
droga foram relatadas após períodos de tratamento
menores de um mês. Dano ao fígado, reversível na
maioria dos casos, foi verificado após curta exposição ao
medicamento", conclui a nota.
Já o Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos
(Sindusfarma) informou que não tem nenhum comentário
específico a fazer sobre o tema, mas reforçou que "todos
os medicamentos tarjados [como é o caso da nimesulida]
devem ser usados com orientação dos profissionais de
saúde e só devem ser vendidos e dispensados mediante
a apresentação da receita médica".
Para Marise, é preciso também exercitar o
autoconhecimento e observar o corpo.
"O mais importante de tudo é a pessoa entender por que
está tomando um medicamento, seja por conta própria
ou não. Ela está com uma dor recorrente, que não passa? Será que não é melhor investigar o que está
acontecendo e as causas disso?", questiona a
farmacêutica.
"Antiinflamatórios podem até aliviar os sintomas, mas
não tratam a causa do problema", conclui a especialista.
Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles
/c24707d1gr1o -fragmento