TEMPO
Antônio Prata
O bem mais valioso de nossa época não é o diamante nem
o petróleo, a fórmula da Coca-Cola ou o sorriso da Natalie
Portman: é o tempo. Obedecendo à lei da oferta e da
procura, quanto mais escasso ele fica, mais caro nos é. A
seca temporal é geral e irrestrita, tão democrática quanto a calvície, a saudade e a morte: eu não tenho tempo, você
não tem tempo, o Eike Batista não tem tempo, o cara que
está vendendo bala no farol, em agônica marcha atlética para
recolher os saquinhos dos retrovisores, antes que abra o sinal,
também não tem.
Como vocês devem saber, o principal sintoma desta doença
crônica – sem trocadilho – é a ansiedade. Toda manhã,
flagro-me aflito, escovando os dentes, com pressa. Vejo-me
batendo os pés no hall, enquanto o elevador não chega. Até
o segundo que o cursor do celular leva para piscar, num SMS,
permitindo-me digitar outra letra da mesma tecla, deixa-me
exasperado.
Antigamente, não era assim. Na minha infância, os dias tinham
trinta horas, alguns chegando mesmo a quarenta, se bem me
lembro. Não, não é que eu faça hoje mais coisas do que antes.
Já pensei nisso, mas veja só quantas obrigações eu tinha no
passado: cinco horas na escola, lição de casa, inglês, bateria,
natação, jantar com os pais, toda noite, sem contar os séculos
ao vivo ou ao telefone tentando convencer alguma menina a
beijar-me na boca... E, mesmo assim, ainda sobravam infinitos
latifúndios improdutivos, impossíveis de se ocupar, por mais
que assistisse televisão, tirasse cochilos vespertinos, lesse
livros, fosse às casas dos amigos jogar videogame, falar mal
dos outros ou simplesmente juntar nossos tédios, olhar as
paredes e escutar o tic-tac dos relógios.
Das duas, uma: ou as horas eram mais abundantes do que
hoje, ou, então, tinham uma incrível capacidade regenerativa,
que perderam: a cada duas ou três horas mortas, uma nova
hora nascia, fresquinha, como as células de uma pele jovem.
Acho que foi lá pelo ano dois mil que o dia começou a
encolher, chegando a essas míseras vinte quatro horas –
com sensação térmica de dezesseis. Talvez tenha sido esse
o verdadeiro bug do milênio: na virada de noventa e nove
para o zero zero, todos os ponteiros, vendo-se livres do velho
milênio e admirando o vazio que se abria adiante, como um
retão num circuito de fórmula um, resolveram meter os pés
no acelerador, de modo que acabamos assim, espremidos
entre prazeres e obrigações, aflitos, escovando os dentes
com pressa, andando em círculos, no hall do elevador.
Há quem diga que a culpa é da melhora das comunicações
e, consequentemente, do envio de dados. Com a informação
viajando tão rápido, desaprendemos a arte da espera.
Antigamente, aguardar era normal. Estávamos sempre
esperando alguma coisa chegar. Uma carta, pelo correio. Um
disco, do exterior. Uma foto, um texto ou um documento, via
portador. Esses hiatos eram tidos como normais, uma brecha
saudável, pausa para o cigarro ou o café, a prosa, a leitura
de uma revista, o devaneio, a conversa na janela, a morte da
bezerra. Hoje, não. Tá tudo aqui, e, se não está, nos afligimos.
Queremos o pássaro na mão e os dois voando. Por que é que
ainda não trouxeram esses dois que tão no céu, diabo?! Já
não era melhor ter pego logo os três, de uma vez, otimizando
custos e esforços?
Enquanto não descobrimos a cura para este mal, a única saída
é aprender a lidar com ele. Há que cercar com muros altos
certas horas do relógio, para que nada as possa roubar de
nós. Fazer diques de pedra em torno da hora de ficar com
nosso amor, da hora de trabalhar no projeto pessoal, da hora
do esporte, de ler um livro, encontrar um amigo. Mesmo
assim, vira e mexe, vêm as obrigações, como um tsunami, ou
os eventos sociais, como meteoros, e derrubam as barragens.
Não há nada a fazer, senão reconstruir os muros, ainda mais
fortes do que antes.
Você sente a mesma coisa, ou sou só eu? Talvez seja só eu.
Quem sabe, numa manhã de terça-feira, lá por 1998, eu tenha
perdido a hora, para nunca mais encontrá-la? Ficarei assim,
trinta minutos atrás do resto do mundo, tentando alcançá-lo,
ininterruptamente, como quem corre atrás de um trem, até o
fim dos tempos. Será que foi isso?
Disponível em: https://www.pavablog.com/2011/08/20/tempo. Acesso em: 11
jul. 2020.
A partir da leitura da crônica Tempo, de Antônio Prata,
assinale a alternativa que apresenta características
observáveis nesse texto.