A questão refere-se ao texto a seguir.
TEXTO 1
Renovação da língua, neologismos e estrangeirismos
Companheira dos seus usuários, a língua participa dos acontecimentos e mudanças históricas por
que eles passam, sucessos ou fracassos. A língua portuguesa, transplantada à América pelos nossos
descobridores e colonizadores, chega ao Brasil no século XVI num momento auspicioso para a humanidade.
A vontade e a força indomáveis de heroicos navegadores fazem singrar por mares até então desconhecidos
caravelas pouco favorecidas pela ciência náutica da época, mas, impulsionadas por acalentados sonhos de
poder e de ambição, revelam novas terras e aproximam povos de variadas línguas e culturas. Nessa empresa
têm papel relevante os portugueses, que, na frase feliz de Alexandre Humboldt, duplicaram o mundo até então
conhecido. A florescente terra brasileira, depois dos obstáculos a serem vencidos na árdua tarefa de descobrir
e fixar-se na nova terra, alargando-lhe os limites e enraizando as bases da nova nação, chega ao século
XVIII, independente, ávida por acertar os passos civilizatórios com as nações europeias de mais prestígio na
época.
A nova atmosfera cultural impulsiona o falante da língua a criar vocábulos novos, conhecidos pelo
nome de neologismos. Os neologismos podem começar por utilizar a prata da casa, alargando a família da
palavra com a utilização de prefixos e sufixos: pátria, patriotismo, patriotada, etc. Outros neologismos vêm do
contato com outras línguas, caso em que são chamados empréstimos. Uma concepção antiga de língua “pura”
via com maus olhos esses empréstimos exóticos, oriundos de outras línguas, fazendo exceção àquele que
viesse do latim e do grego. Ocorre que não há língua de cultivo puro, sem o auxílio do patrimônio de outras
línguas, com as quais um idioma entra em contato. Os filólogos, gramáticos e escritores de boa formação não
entram no rol desses puristas. Mais adiante vamos ver como José de Alencar põe nos devidos termos a boa
orientação em face dos estrangeirismos, especialmente os francesismos ou galicismos, isto é, os que nos
chegam da França.
Na feliz declaração do nosso historiador Capistrano de Abreu, José de Alencar foi quem melhor teve
a intuição da vida colonial brasileira, e é esse romancista que, em 1872, na “Bênção paterna” aos sonhos
douro, denuncia o anseio da sociedade dessa fase da vida brasileira:
Notam-se aí, através do gênio brasileiro, umas vezes embebendo-se dele, outras
invadindo-o, traços de várias nacionalidades adventícias; é a inglesa, a italiana, a espanhola,
a americana, porém especialmente a portuguesa e francesa, que todas flutuam, e a pouco e
pouco vão diluindo-se para infundir-se n’alma da pátria adotiva, e forma a nova e grande
nacionalidade brasileira.
Vê-se por essa passagem que a língua de nacionalidade brasileira, consubstanciada nos dois séculos
anteriores com o enriquecimento da contribuição das línguas indígenas e africanas, passou a receber também
a contribuição de outras nações que vieram ajudar os brasileiros a construir a nova sociedade. A contribuição
espraiava-se nos vários domínios culturais, desde os degraus da ciência até aquele do dia a dia do cidadão
comum. Entre essas novidades ocupavam lugar preeminente os fatos da língua, conhecidos, como já vimos,
pelo nome técnico empréstimos. Entre a variada gama das variantes linguísticas (as fonéticas, morfológicas,
sintáticas e lexicais), as mais suscetíveis de novas aquisições são as lexicais, porque o vocabulário é a mais
larga porta do idioma para contato com o mundo exterior, com os laços culturais com outras nações. José de
Alencar está atento a esses contactos linguísticos, e sobre eles assim se expressa no mesmo texto já citado,
reclamando dos seus críticos:
Tachar-se estes livros (Lucíola, Diva, A pata da gazela e Sonhos d’ouro) de confeição
estrangeira, é, relevem os críticos, não conhecer a fisionomia da sociedade fluminense, que
aí está a faceirar-se pelas salas e ruas com atavios parisienses, falando a algemia universal,
que é a língua do progresso, jargão eriçado de termos franceses, ingleses, italianos e agora
também alemães.
Os termos e locuções de fontes estrangeiras eram trazidos por pessoas que sabiam os idiomas, ou
que tinham sobre eles alguma informação de pronúncia e grafia; por isso, se vestiam com as feições
originárias. Admitidos na linguagem diária, muitos desses estrangeirismos mais usados podiam ser
acomodados à pronúncia e grafia do português, que os recebia; aportuguesavam-se, apesar da crítica de
juízes mais exigentes. Alencar, sempre sintonizado com o que ele chamou “língua do progresso”, perpetrou
tais nacionalizações e assim se manifestou numa polêmica travada com Joaquim Nabuco, em 1875:
Notou ainda o crítico a palavra grog, de origem inglesa, por mau aportuguesamento em
grogue. Podia notar outras como tílburi, piquenique, lanche; ou crochete e champanhe, do
francês. Desde que termos estrangeiros são introduzidos em um país pela necessidade e
tornam-se indispensáveis nas relações civis, a língua, que os recebe em seu vocabulário,
reage, por uma lei natural sobre a composição etimológica, para imprimir-lhe o seu próprio
caráter morfológico. A pronúncia e a ortografia alteram-se, em alguns casos profundamente;
mas sempre conforme as leis fonéticas, estudadas por Jacob Grimm e seus continuadores.
Em português nós já temos de outros tempos, redingote de redingoat; jaqueta de jacket inglês
ou jaquette francês; pichelingue e escolteto do flamengo Flessing e schout, dessér, trumó, do
francês dessert e trumeau e muitos outros. As línguas estrangeiras também por sua vez
corrompem ou antes sujeitam ao seu molde os nossos vocabulários brasileiros. Assim os
franceses mudaram goiaba em goiave, caju em acajou, mandioca em manioc; e o mesmo
acontece com outros povos acerca de várias palavras americanas. A iniciativa dessa
nacionalização filológica do vocábulo exótico há de partir de alguém, mas será o primeiro a
dar-lhe o cunho brasileiro; e por que não pode ser este seu escritor?
Todo esse trecho de Alencar antecipa de quase 150 anos as questões de que hoje tratam linguistas,
filólogos, gramáticos, escritores e jornalistas. As propostas do escritor cearense pouco diferem das
apresentadas agora, embora tenha de haver bom senso no processo de nacionalização, porque muitos
desses termos estrangeiros pertencem ao rol daqueles que Sérgio Correia da Costa chamava “palavras sem
fronteiras”, que pertencem a terminologias técnicas e que na forma estrangeira correm mundo em todas ou
quase todas as línguas; a nacionalização pode segregar o idioma em face do internacional generalizado.
Na história dos estrangeirismos merecem atenção especial as palavras de torna-viagem, isto é,
aquelas que depois de passar por uma língua a outra, retornam à primeira sob roupagem exótica da 2ª;
aconteceu isso com o português feitiço, que passou para o francês fétiche e depois foi tomado do francês
para o português sob a forma fetiche, com o derivado fetichismo.
No tempo de Alencar, com vigência até nossos dias, os empréstimos do francês — os galicismos —
eram repelidos com veemência por todos os puristas de plantão, portugueses e brasileiros, gramáticos e
escritores. O nosso romancista encontrou a razão da rejeição, mostrando a sem-razão do procedimento,
antecipando-se de anos à lição exarada pelos filólogos Adolf Noreen e Michel Bréal, segundo a qual esse
repúdio continuava dissensões e desavenças políticas entre povos, com as quais, apesar de justas, os
estudos linguísticos nada têm a ver. Assim os filólogos gregos proscreviam as palavras turcas, como os
tchecos as alemães, os alemães as francesas e os portugueses as francesas, aqui para vingar a invasão de
Portugal pelas tropas de Junot. Leia-se o comentário certeiro de Alencar em defesa dos galicismos que ele
emprega em suas obras: “Mas a mania do classicismo, que outro nome não lhe cabe, repele a mínima
afinidade entre duas línguas irmãs, saídas da mesma origem. Temos nós a culpa do ódio que semearam em
Portugal os exércitos de Napoleão?”
(In: BECHARA, Evanildo. Análise e história da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2022. p. 245-247.)