Retardei o passo. A tarde estava brilhante, mas o calor era
o do inferno, os transeuntes a desfilarem pela fornalha com uma
expressão de condenados, os rostos lustrosos, o olhar pesado. Um
homem de terno branco esbarrou em mim. Caiu-lhe a pasta.
Resmungou enquanto se inclinava para apanhá-la. A culpa fora
minha e por isso pensei em voltar-me para pedir-lhe desculpas,
mas prossegui preguiçosamente pela rua afora. Para que
desculpas? Fazia calor e era cansativo ser amável num calor
assim. A vontade queria o ócio. O corpo queria nudez. Voltei a
cara para o céu ardente. Havia poucas nuvens, mas a tempestade
já conspirava no ar. Melhor escolher um outro dia, não? Afinal,
tio Samuel não me esperava mesmo, talvez fosse até aborrecê-lo
com a minha presença, os loucos estranham às vezes a invasão
nos seus mundos.
Lygia Fagundes Telles. Verão no Aquário. Rio de Janeiro:
Livraria José Olympio Editora, 1978, p. 100 (com adaptações).