Leia o texto a seguir.
Ninguém
Havia um olhar sem dono flutuando entre os móveis e o
lustre... Entre os quadros e o pó que uma faixa de sol
alumiava. De fato, havia por ali um olhar submerso, meio
entorpecido talvez por uma preciosa compaixão de tudo e
nada, invisível por entre pupilas esfuziantes, diria que
espumantes. Esse olhar parecia uma inseminação atávica
naquela reunião de ilustres. Dominado por seu apelo vago,
entrei no banheiro para lavar as mãos, não sei... Como que
para selar o surto de exclusão que me acendia. Vi um corpo
a se banhar atrás da cortina. “Quem é?”, escutei. Balbuciei:
“Ninguém”. E fui me esgueirando para a porta de serviço.
NOLL, J.G. Mínimos, múltiplos, comuns. São Paulo: Francis, 2003, p. 32
No microconto “Ninguém” o pensamento do narrador orbita
entre