Leia o texto a seguir para responder à questão.
Bom mesmo
O homem passa por várias fases na sua
breve estada neste palco que é o mundo, segundo
Shakespeare. Muitas coisas distinguem uma fase
da outra, mas o que realmente diferencia os
estágios da experiência humana sobre a Terra é o
que o homem, a cada idade, considera bom
mesmo. Não o que ele acha bom — o que ele
acha melhor. Melhor do que tudo. Bom
MESMO.
Um recém-nascido, se pudesse participar
articuladamente de uma conversa com homens
de outras idades, ouviria pacientemente a opinião
de cada um sobre as melhores coisas do mundo e
no fim decretaria:
— Conversa. Bom mesmo é mãe.
Já um bebê de mais idade discordaria.
— Bom mesmo é papinha.
Depois de uma certa idade, a escolha do
melhor de tudo passa a ser mais difícil. A
infância é um viveiro de prazeres. Como
comparar, por exemplo, o orgulho com um pião
bem lançado, ou o volume voluptuoso de uma
bola de gude daquelas boas entre os dedos, com
o cheiro de terra úmida ou de caderno novo?
Existem gostos exóticos:
— Bom mesmo é cheiro de Vick Vaporub.
Existe ainda uma fase, no começo da
puberdade, em que a indecisão é de outra
natureza. O cara se acha na obrigação de pensar
que bom mesmo é mulher, mas no fundo ainda
tem a secreta convicção de que bom mesmo é
acordar com febre na segunda-feira e não
precisar ir à aula. Depois, sim, vem a fase em que
não tem conversa. — Bom mesmo é sexo!
Essa fase dura, para muita gente, até o fim
da vida. Mesmo quando sexo não está em
primeiro lugar numa escala de preferências serve
como referência. Daí para diante, quando alguém
disser que “bom mesmo” é outra coisa que não o
sexo estará sendo exemplarmente honesto ou
desconcertantemente original.
Com a chamada idade madura, as
necessidades do conforto e os pequenos prazeres
das coisas práticas vão se impondo.
— Meu filho, eu sei que você, aí tão cheio
de vida e de entusiasmo, não pode compreender
isso. Mas tome nota do que eu vou dizer porque
um dia você concordará comigo: bom mesmo é
escada rolante.
E assim é a trajetória do homem e seu
gosto inconstante sobre a Terra, do colo da mãe,
que parece que nada, jamais, substituirá, à
descoberta final de que uma boa poltrona
reclinável, se não é igual, é parecida. E que bom,
mas bom MESMO, é não precisar ir a lugar
nenhum, mesmo sem febre.
VERISSIMO, L. F. Verissimo antológico: meio
século de crônicas, ou coisa parecida. São Paulo:
Objetiva, 2020.