Leia o texto a seguir para responder à questão.
Beleza
Acorda esse homem inesperada e
injustificavelmente cedo, sem saber direito onde
está, mas inteiramente certo de que aquela cama
não é a sua. O despertar de quem dorme fora é
sempre assim e a primeira sensação é uma
desconfiança: terei sido raptado?
Aos poucos, as ideias se arrumam, a
inconsciência do sono vai cedendo lugar à
lucidez das coisas exatas e a realidade se
comprova na cor da parede, no desenho dos
móveis, no cheiro da fronha e dos lençóis, que é
uma agradável novidade olfativa. Esse homem
chega à simples conclusão de que é um hóspede.
Tem um dia grande e vadio pela frente. Poderá,
se quiser, continuar na cama, lendo, tramando,
cochilando e, mais que tudo, gozando a
perspectiva do tempo sem horários e sem tarefas.
Mas decide levantar. Antes, faz sua reza íntima
de todas as manhãs, a que diz: “Não te deixes
tomar pelo pequeno êxito e não te eleves acima
do conhecimento que tens da tua frequente
fragilidade” etc.
Abre a janela. A bruma baixa desfigurou a
silhueta dos montes. Vai chover e o dia terá um
céu triste. Mas o vento frio da serra e as flores,
que são tantas — amarelas, vermelhas, azuis —
trazem uma alegria completa, uma impressão de
salvamento, em que os cansaços e desgostos
aparecem como penas já cumpridas.
Dali por diante, esse homem está quite com os
castigos e lhe chegam — como nos domingos da
meninice — as esperanças, o ânimo, a ideia
tranquila de existência. Esse homem não sabe se
está apaixonado por uma mulher ou
simplesmente pela vida. Mas, em seu coração, há
um amor indefinido, que por si, pelo bem que faz,
poderá ficar sem alvo certo, sem reciprocidade.
Basta-lhe a manhã de vento frio, o perfume das
flores e o verde do capim viçoso.
Deve ser este um grande momento de sua vida,
porque a sensação constante de saudade não está,
pela primeira vez, entre os seus sentimentos.
Maria, A. Vento vadio: as crônicas de Antônio Maria. São
Paulo: Todavia, 2021.