O texto seguinte servirá de base para responder à questão.
O lagarto de digestão lenta que foi essencial na
criação do Ozempic
É uma pequena criatura, de pele brilhante e escamosa,
que vagueia pelos desertos da América do Norte com
passos lentos e que, indiretamente, serviu para promover uma revolução farmacológica. Seu nome científico é
Heloderma suspectum, mas a maioria das pessoas
conhece este réptil como monstro-de-gila.
E embora sua mordida venenosa cause sérias
complicações para um ser humano, este pequeno animal
um tanto desajeitado está por trás de uma das
descobertas médicas que mais prometem salvar vidas no
futuro.
Em seu veneno, pesquisadores descobriram uma enzima
que inspirou os cientistas a desenvolver medicamentos
que aumentam a atividade do receptor GLP-1, hoje
vendidos nas farmácias com os nomes Ozempic,
Wegovy e Mounjaro e prometem ser uma revolução no
combate ao diabetes tipo 2 e à obesidade.
Assim como o monstro-de-gila foi a espécie-chave para o
desenvolvimento destes medicamentos, o estudo do
veneno de outros animais também já rendeu avanços
importantes, como o desenvolvimento de medicamentos
para controle da pressão arterial e anticoagulantes.
"As toxinas evoluem para desempenhar funções muito
específicas, como se defender contra predadores ou
incapacitar suas presas", explica à BBC News Mundo,
serviço de notícias em espanhol da BBC, o professor
Kini, que dedicou sua vida a explorar diferentes tipos de
toxinas para encontrar usos alternativos para elas.
No caso do monstro-de-gila — uma das duas espécies
de lagartos venenosos nativos da América do Norte —
seu veneno evoluiu para imobilizar pequenas presas,
devido à sua falta de agilidade.
O que os cientistas descobriram é que, além de ter um
efeito sobre a presa, um hormônio presente no veneno
do monstro-de-gila ajuda o metabolismo deste lagarto a
desacelerar a tal ponto que ele sobrevive por até um ano
com apenas seis refeições.
Ao isolá-lo, os pesquisadores descobriram que este
hormônio, chamado de exendina-4, era muito
semelhante ao GLP-1, uma substância que o ser
humano produz naturalmente para regular os níveis de
açúcar no sangue após as refeições.
No entanto, a exendina-4 é diferente do GLP-1 em uma
característica fundamental: enquanto o GLP-1 humano
deixa o corpo rapidamente por meio de mecanismos de
excreção natural, a exendina-4 permanece por mais
tempo no organismo, o que faz com que seu efeito na
regulação da glicose seja mais duradouro.
Isso fornece a base para o desenvolvimento de
medicamentos que atuam como agonistas do receptor
de GLP-1. A primeira grande aplicação prática da
exendina-4 foi no desenvolvimento de um medicamento
chamado Byetta (exenatida), especificamente para tratar
diabetes tipo 2.
Este tratamento reduz os níveis de glicose e, com
pequenas modificações, lançou as bases para outros
compostos mais resistentes e duradouros, como a
semaglutida, princípio ativo do Ozempic e Wegovy.
"É impressionante como uma mudança em um ou dois
aminoácidos faz com que a molécula dure mais tempo na corrente sanguínea, mantendo ou até mesmo
aumentando sua eficácia terapêutica", diz Kini à BBC
News Mundo.
https://www.bbc.com/portuguese/articles/cj3nl8d1z8no.adaptado.