Leia o texo a seguir:
Críticas à geração Z são cheias de pontos cegos
Notícia de jovens que vão a entrevistas de emprego com seus
pais viralizou recentemente; mas já parou para pensar que os
pais acham natural acompanhá-los?
Você deve achar que é da geração que nunca teve a melhor
parte do frango. Quando era criança te obrigavam a esperar
que os pais escolhessem primeiro. Agora que é adulto, sente-se
constrangido – senão obrigado – a dar a melhor parte para os
filhos.
Eu acho essa história meio desonesta. Basta perceber que
todo adulto se identifica com ela, não importa que idade tenha.
O avô que a ouve acha que ela se refere a sua geração, mas
seu filho, que hoje é pai, pensa o mesmo. Todos se reconhecem
porque é natural que os pais tentem dar o melhor para seus filhos.
Ao mesmo tempo, nenhum filho tem aparato cognitivo e emocional
suficiente para aquilatar adequadamente esses esforços de
seus pais – daí não nos lembrarmos de também termos sido
privilegiados por eles.
É como a tola frase que diz que homens fortes criam tempos
fáceis, tempos fáceis criam homens fracos, que criam tempos
difíceis, que fazem homens fortes. Trata-se de uma evidente
crítica às novas gerações, considerando-as fracas e atribuindo
isso a terem sido criadas nos tempos fáceis que seus pais –
homens fortes crescidos em tempos difíceis – proporcionaram.
Mas, se estendemos o raciocínio um pouquinho, ele
desmorona. Ou, então, a geração anterior teria sido formada
por homens fracos, já que deram ensejo aos tempos difíceis que
fizeram fortes seus descendentes. Quem hoje aponta a fraqueza
dos filhos raramente dirá que seus próprios pais tiveram tempos
fáceis.
Esses são só alguns exemplos de como a crítica geracional é
cheia de pontos cegos. As explicações que começam com “esses
jovens” normalmente são embasadas em ideias preconcebidas
que parecem fazer sentido, mas que não resistem a uma análise
mais profunda.
Sim, os mais novos apresentam diferenças. Mas, mais
do que uma mudança de geração, essas diferenças apenas
antecipam as mudanças dos nossos tempos.
[...] Candidatos a empregos da geração Z (com seus 20 e
poucos anos) vêm comparecendo a entrevistas acompanhados
por seus pais. Superficialmente, parece um fenômeno que
denuncia a imaturidade e insegurança dos jovens. Mas, preste
atenção: os pais aceitam ir junto. E mais: os empregadores
embarcam na onda. Um cenário que seria impossível se só uma
geração estivesse insegura.
É fácil olhar para os filhos e identificar a fragilidade de sua
geração. Mais difícil é olhar para o espelho – ou para nossa
geração – e entender que fazemos também parte desses novos
tempos, gostemos deles ou não.
Fonte: https://www.estadao.com.br/saude/daniel-martins-de-barros/criticas-ageracao-z-sao-cheias-de-pontos-cegos/. Acesso em 23/03/2024. Excerto.