Leia os fragmentos a seguir.
[...] É impossível falar sobre a história única sem falar sobre poder. Existe uma palavra
em igbo na qual sempre penso quando considero as estruturas de poder no mundo: nkali.
É um substantivo que, em tradução livre, quer dizer “ser maior do que outro”. Assim como
o mundo econômico e político, as histórias também são definidas pelo princípio de nkali:
como elas são contadas, quem as conta, quando são contadas e quantas são contadas
depende muito de poder.
O poder é a habilidade não apenas de contar a história de outra pessoa, mas de
fazer que ela seja sua história definitiva. O poeta palestino Mourid Barghouti escreveu
que, se você quiser espoliar um povo, a maneira mais simples é contar a história dele e
começar com “em segundo lugar”. Comece a história com as flechas dos indígenas
americanos, e não com a chegada dos britânicos, e a história será completamente
diferente. Comece a história com o fracasso do Estado africano, e não com a criação
colonial do Estado africano, e a história será completamente diferente.
ADICHIE, Chimamanda Ngozi. O perigo de uma história única. Companhia das Letras, 2019.
[...] A pensadora e feminista negra Lélia Gonzalez nos dá uma perspectiva muito
interessante sobre esse tema, porque criticava a hierarquização de saberes como produto da
classificação racial da população. Ou seja, reconhecendo a equação: quem possuiu o privilégio
social possui o privilégio epistêmico, uma vez que o modelo valorizado e universal de ciência é
branco. A consequência dessa hierarquização legitimou como superior a explicação
epistemológica eurocêntrica conferindo ao pensamento moderno ocidental a exclusividade do
que seria conhecimento válido, estruturando-o como dominante e, assim, inviabilizando outras
experiências do conhecimento. Segundo a autora, o racismo se constituiu “como a ‘ciência’ da
superioridade eurocristã (branca e patriarcal)”. Essa reflexão de Lélia Gonzalez nos dá uma pista
sobre quem pode falar ou não, quais vozes são legitimadas e quais não são.
[...] Lélia Gonzalez provoca e desestabiliza a epistemologia dominante, assim como Linda
Alcoff. Em uma epistemologia para a próxima revolução, a filósofa panamenha critica a
imposição de uma epistemologia universal que desconsidera o saber de parteiras, povos
originários, a prática médica de povos colonizados, a escrita de si na primeira pessoa e que se
constitui como legítima e com autoridade para protocolar o domínio do regime discursivo [...].
Seria preciso, então, desestabilizar e transcender a autorização discursiva branca,
masculina cis e heteronormativa e debater como as identidades foram construídas nesses
contextos.
RIBEIRO, Djamila. Lugar de fala. Belo Horizonte, Letramento 2017.
A análise da supremacia narrativa baseada nas relações de poder entre as diferentes nações
dominadas e dominadoras, trazida por Chimamanda Adichie, e a proposta de desestabilização e
transcendência, apontada por Djamila Ribeiro, poderiam, de acordo com as teorias trazidas por Silva
(2007), serem mais bem executadas pela construção de um currículo inspirado em qual base
epistemológica?