Leia o texto a seguir para responder à questão:
Janeiro, na casa onde me criei, podia transcorrer em
qualquer lugar, desde que ensolarado – estou me lembrando de Guarapari, Araxá, Bertioga, Salvador –, mas nosso
julho era sempre na fazenda. Não havia escolha, e ninguém
reclamava.
Quando menino, me parecia uma distância enorme a
percorrer. Só mais tarde me dei conta de que aquelas terras
de meus avós ficavam a 14 km da Praça Sete, o umbigo de
Belo Horizonte, município ao qual acabaram sendo integralmente incorporadas. Ficava tão perto que, com a família em
férias, meu pai seguia todas as manhãs para o batente em
seu consultório.
A sensação de lonjura que me dava tinha a ver com
a progressiva piora nas condições dos caminhos sobre
os quais, lotado, trafegava o nosso carro – primeiro, um
Chevrolet 1939, depois uma sucessão de Kombis, única
solução automobilística para um casal que se desdobrou
numa dezena de crias.
O asfalto não tardava a dar lugar ao calçamento, e
este a uma estrada de terra, à qual não faltavam “costelas”,
ondulações que me faziam pensar no plano inclinado de
um tanque onde se esfrega a roupa. A certa altura, entrava em nosso campo de visão, à direita, o soturno prédio do
Matadouro Municipal.
A fazenda parecia longe, também, pela diferença de
temperatura, no inverno muito mais baixa do que em Belo
Horizonte. O frio era revoltante aos domingos, quando, nuns
restos ainda escuros de madrugada, nossos pais nos acordavam para a missa das 6, a uns poucos quilômetros dali, na
capela do sanatório que meu avô fizera construir.
Acho que comecei a perder a fé religiosa naquelas madrugadas em que me obrigavam a deixar o bem-bom das cobertas e seguir, em jejum, para a missa das 6. Foi lá que adquiri
o direito irrevogável a uma vaga no Paraíso, não importando
que pecados tenha cometido desde então, e quantos venha
a cometer ainda. Estará assim compensado, espero, o sofrimento térmico que passei, com o Rodrigo e o Otávio, meus
irmãos parelhos, quando nosso pai, um cavalheiro, nos mandava apear do carro e seguir a pé, cedendo a alguém de mais
idade (na época, praticamente não havia quem não o fosse)
três assentos ainda quentes no Chevrolet 1939.
(Humberto Werneck, https://www.estadao.com.br/cultura/
humberto-werneck/na-toca-mas-viajando/, 05.03.2025. Adaptado)