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MULHERES MADURAS
Fabrício Carpinejar
Na adolescência ou na juventude, você se apaixona por
uma pessoa. É uma paixão personalizada: quer alguém
para fazer parte de sua rotina, para estar com você,
próximo de você. Existe ciúme, possessividade,
insegurança, medo de ser abandonado.
Na velhice, e só na velhice, você se apaixona por um estilo
de vida. O patamar é outro: você anseia por existências
surpreendentes.
É o que acontece frequentemente com as mulheres
maduras. Os homens mais velhos ainda não lidam bem
com a solidão e acabam se tornando mais dependentes e
mais carrapatos. Têm horror ao vazio. Ficam mendigando
uma reconciliação às ex-esposas quando são deixados
pelos seus romances meteóricos com parceiras que têm a
metade das suas idades. Buscam tardiamente corrimões
nas alianças antigas para ficar novamente de pé.
Por sua vez, as mulheres maduras alcançam um extremo
de sabedoria. Escolarizadas pelo espírito aventureiro, elas
se desapegam da noção material e avarenta da presença.
Não é por acaso que apresentam uma longevidade maior
do que a dos homens. Não se prendem à simbiose nem se
subjugam a uma convivência.
Já estão num ponto das trajetórias em que não é qualquer
fato que despertará a sua atenção. Viveram muito e já não
se assustam com dores ou tragédias.
Sequer temem a solteirice. Idolatram a independência.
Namoram, mas não casam. Não abrem mão da casa
separada, de cada um com a sua família, dos horários a
sós.
Apaixonam-se por obras de escritores, de músicos, de
cineastas, por pensamentos, por teorias, por visões de
mundo, como se fossem amores carnais. São capazes de
sentir os mesmos arrepios e suspiros.
Matriculam-se em cursos e oficinas, escrevem livros,
mudam de carreira.
Os prazeres não se restringem a estar acompanhadas.
Antes povoam a alma com a sua própria companhia,
vivenciando novas culturas e hábitos para aperfeiçoar a
personalidade.
Exploram a ciência da sensibilidade. Pretendem viajar, sair,
conversar, beber, gastar seu tempo ouvindo biografias
interessantes e exóticas. Quanto mais fora da caixa,
melhor o interlocutor.
Depois de fazer tudo pelos maridos, filhos e netos,
cansaram-se das sombras, das desculpas, do futuro
postergado.
Preferem as amizades aos relacionamentos amorosos, a
lealdade à fidelidade.
São compreensivas com os erros humanos, com os
percalços e, principalmente, com as suas dúvidas. A
curiosidade é o motor das suas esperanças.
Não são reféns da jovialidade, da cultura da aparência.
Encontraram algo superior no caminho: a vitalidade do
autoconhecimento.
Descobriram que o coração não tem rugas. Que podem
amar ideias, não somente pessoas.
Minha coluna no jornal Zero Hora, GZH, última página, Porto Alegre (RS),
5/10/2022