Como se sabe, os dispositivos elaborados para tratar da
violência articulam diferenças de raça, de classe e de gênero e,
assim, facilitam, naturalizando, as acusações que designam os
homens negros como propícios ao crime e às incivilidades, em
contraste com as mulheres, posicionadas, nesse jogo relacional,
como aquelas que melhor corporificam os valores morais. [...] É
como se houvesse um consenso difuso e amplamente partilhado
sobre a superioridade moral das mulheres em relação à violência
e ao crime, que abrange tanto pontos de vista religiosos como
seculares; e, de certa forma, o que relatamos aponta para os
homens como o alvo dos trabalhos pastorais e para as mulheres
como aquelas que teriam uma pouco questionada e (muito
acionada) aderência aos valores morais seculares e cristãos.
Patrícia Birman. Narrativas seculares e religiosas sobre a violência:
as fronteiras do humano no governo dos pobres. In: Sociologia e
Antropologia. 9(1), jan.-abr./2019, p. 122 (com adaptações).