— Estamos na ruína — disse ele. — Ruína total, pode ficar
sabendo.
Foi tudo que disse, e nunca mais tornou a dizê-lo nem
aconteceu nada que indicasse se dissera a verdade, mas depois
daquela noite Fermina Daza ficou consciente de que estava só
no mundo. Vivia num limbo social. Suas antigas companheiras
de colégio estavam num céu proibido para ela, muito mais ainda
depois da desonra da expulsão, mas nem por isso ela era vizinha
dos vizinhos, porque estes a haviam conhecido sem passado e
com o uniforme da Apresentação da Santíssima Virgem.
O mundo de seu pai era de traficantes e estivadores, de
refugiados de guerras no albergue público do Café da Paróquia,
de homens sós. No último ano, as aulas de pintura haviam
aliviado um pouco sua reclusão, porque a professora preferia as
aulas coletivas e costumava trazer outras alunas ao quarto de
costura. Mas eram moças de condições sociais dispersas e mal
definidas, e para Fermina Daza não passavam de amigas
emprestadas cujo afeto acabava com cada aula. Hildebranda
queria abrir a casa, ventilá-la, trazer os músicos e os foguetes e
fogueteiros de seu pai e fazer um baile de carnaval cujas
ventanias varressem o desânimo e as traças que roíam a vida da
prima, mas em pouco tempo percebeu que seus propósitos eram
inúteis. Por uma razão simples: não havia com quem. [...]
GARCIA MARQUEZ, Gabriel. O amor nos tempos do cólera. 52. ed. Rio de Janeiro: Record, 2019, p. 167.
Sobre o fragmento de texto acima, assinale a alternativa correta.