Leia o excerto a seguir para responder à questão:
Sobre zona de conforto, meritocracia e Trump
Dia desses, assistindo a uma entrevista, vi um capitalista dizer que, para ganhar mais dinheiro, precisa sair de
sua “zona de conforto”. Oh, chavão. Pelo que pude entender, a “zona de conforto” representaria para ele um convite
à acomodação e à preguiça improdutiva. Logo, um estado
de relaxamento e de calma seria um vício moral; o homem
de negócios sem ócios precisa contar com uma dose de aflição, de nervosismo e até de medo, ou não terá disposição
para correr riscos, mesmo que calculados. Moral da história:
o conforto não é bom para o tilintar das caixas registradoras.
Outro capitalista, esse mais velho, nos tempos em que
tinha um banco de investimentos na Avenida Faria Lima,
comentava com seus diretos que não gostava de “gato
gordo”. Ele não se referia a felinos, óbvio. Ele falava de
homens. O “gato gordo”, em seu dicionário, era aquele
ex-jovem promissor que rapidamente se refestelava numa
posição remediada e se dava por satisfeito com ganhos de
adiposidade, não mais de cifrões. A partir daí, o “gato gordo”,
indolente, comprava uma casa de campo num condomínio
fechado com heliporto e não queria mais saber de aventuras
perigosas. Segundo os ensinamentos do lendário banqueiro,
o “gato gordo” era uma praga. Quando identificava um, demitia correndo.
A expressão “gato gordo” não se popularizou. A outra,
“zona de conforto”, esta caiu na boca do povaréu e virou clichê no mundo corporativo. A toda hora, alguém aparece na
sua frente para falar mal da “zona de conforto”, um signo universal de morosidade, procrastinação, inoperância e falta de
iniciativa (pública ou privada).
A ideologia funciona exatamente assim: as implicâncias
idiossincráticas do patrão são alçadas a cânones inabaláveis
de virtude para o empregado. De pé, oh, vítimas da fome!
Fujam da sua zona de conforto!
Sim, estou sendo irônico. Se for para falar sério, digo
que “zona de conforto” é piada de mau gosto. Na vida de um
bilionário, que não precisa saber quanto custa a anuidade
da escola dos filhos e troca de jatinho todo ano, pode até
ser divertido quebrar a rotina de vez em quando e desafiar o
sossego, um pouquinho só. Mas, na vida do resto da humanidade, uma pitada de estabilidade tranquila é tudo de bom.
Deveria ser festejada, nunca repudiada.
(Eugênio Bucci, “Sobre zona de conforto, meritocracia e Trump”, 02.04.2025.
Disponível em: https://www.estadao.com.br/opiniao/eugenio-bucci/
sobre-zona-de-conforto-meritocracia-e-trump/. Adaptado)