A crônica não é um “gênero maior”. Não se imagina uma literatura feita de grandes cronistas, que lhe dessem o brilho
universal dos grandes romancistas, dramaturgos e poetas. Nem se pensaria em atribuir o Prêmio Nobel a um cronista, por
melhor que fosse. Portanto, parece mesmo que a crônica é um gênero menor.
“Graças a Deus”, – seria o caso de dizer, porque sendo assim ela fica perto de nós. E para muitos pode servir de caminho
não apenas para a vida, que ela serve de perto, mas para a literatura... Por meio dos assuntos da composição aparentemente
solta, do ar de coisa sem necessidade que costuma assumir, ela se ajusta à sensibilidade de todo dia. Principalmente porque
elabora uma linguagem que fala de perto ao nosso modo de ser mais natural. Na sua despretensão, humaniza; e, esta humanização lhe permite, como compensação sorrateira, recuperar com a outra mão uma certa profundidade de significado e um
certo acabamento de forma, que de repente podem fazer dela uma inesperada embora discreta candidata à perfeição.
(CANDIDO, Antônio. A vida ao rés do chão. Prefácio para o livro Para Gostar de Ler volume 5 – Crônicas. Editora Ática, 1992, 8ª edição. Fragmento.)