Leia o Texto I para responder à questão:
Toda criança aprende. A condição humana é aprendida.
Há alguns equívocos muito presentes nas tradições educacionais e pedagógicas atuais, a maioria deles sustentada por
uma concepção inatista de aprendizagem. Fundamenta-se
no pressuposto de que já nascemos com certas disposições
para aprender ou não. Isso gera controvérsias e complexidades: alguns teriam as “capacidades” de aprendizagem, outros e outras não “teriam” essas qualidades.
Para nossa concepção de educação, os chamados bloqueios de aprendizagem devem ser analisados em sua totalidade, muito mais como um problema da tradição pedagógica
autoritária e da forma conservadora de organizar a escola e
o currículo do que uma suposta “falha” da criança. Hoje, a
ditadura da sociedade tecnológica, a apelação consumista,
a raridade de espaços humanizadores, a lacuna na formação
artística, teatral, musical, fazem com que a indústria cultural
seja um grande poluente sonoro e visual, chegando aos corações e mentes das crianças sem dispositivos de crítica da
proposta pedagógica da escola, na direção de mostrar outra
música, outro repertório, outras brincadeiras, outras danças.
Criar espaços de humanização, de exposição serena
das crianças a outras coordenadas antropológicas, a outra
atmosfera de sentido, a outra música, de outra arte, de alegria, de teatro, de conversas, ajuda muito a “desbloquear”
qualquer pessoa! A escola, para mim, deve ter clareza de ser
contraponto, competente e lúcido, à indústria cultural alienante e consumista. Mostrar os grandes mestres e mestras da
humanidade, neste tempo especial de aprender, é um trunfo
inaudito! O conhecimento sensível e a sensibilidade esclarecida são os condutores do afeto e da lucidez crítica. Ensinar
a pensar e a sentir!
Precisamos superar os ritos classificatórios e meritocráticos tradicionais. Os pais e professores podem começar
avaliando o contexto pleno da criança, seu mundo, seus estímulos, internos e externos, ouvindo suas queixas, aceitando
suas versões, buscando superar as contradições que levam
àquele resultado. Relativizar as notas escolares, hoje, pode
ser um bom começo; depreende-se que a nota é resultante
de uma estrutura baseada na memória e na retenção de informação. Ora, tomada estritamente, esta suposta qualidade
mnemônica assemelha-se ao depositário de um “chip”, que
está disponível na internet, o Google ou o ChatGPT “sabem”
mais de quantidade ou de volume de informação do que a
escola.
A Escola que eu sonho é mais do que informação e memória, é aquela capaz de transformar a informação em algo
subjetivo, agradável, pertinente, com sentido para a vida das
crianças e dos adolescentes! Isto é o que se designa como
aprendizagem significativa, que guarda sentido para a criança, para seu universo, para seu mundo. E dele, como sujeito,
a criança poderá alçar aos mais longínquos horizontes.
(César Nunes. Toda criança aprende – aprender é existir. In: Da educação que ama ao amor que educa. Principis, 2023. Adaptado)