Por que ler os Clássicos?
Em tons de poesia, Ítalo Calvino afirma que
“chama-se de clássico um livro que se configura
como equivalente do universo, à semelhança dos
antigos talismãs”. Um talismã é uma forma de
nos religar com aquilo que nos ultrapassa e do
qual queremos, em alguma medida, um auxílio,
uma proteção, uma luz qualquer. E, no ritual
da leitura, ele se oferece como um parceiro de
diálogo profundo, com o qual podemos manter
uma relação de proximidade porque nos acalenta,
“entende-nos”, ou até mesmo nos consola nos
momentos de agruras espirituais.
Um clássico é uma segunda vida, que nos
revela outras cores, outras complexidades,
outras experiências de mundo. Embora “falsas”,
“fictícias”, “meramente imaginárias”, elas nos
mostram em que medida nossas próprias
vivências estão tão indissociavelmente unidas a
todas as outras que nos cercam; por meio delas
também constituímos uma transição inconsútil
entre nós e tudo aquilo que não somos, mas que
nos ajuda a significar nossas circunstâncias. Se
isto nos for possível de estabelecer, então os
clássicos seguirão cumprindo seus papéis, porque
com eles aprendemos a compreender o mundo
por uma lógica não cartesiana, como bem nos colocou Pamuk, na obra O romancista ingênuo e
o sentimental. E esta lição, acredito, é aquela que
levaremos por toda a vida.
Ler um clássico não se trata de uma relação
amorosa superficial, mas aquela que exige uma
grande dedicação, um constante empenho de
nossa parte para que tudo aquilo que ela pode
oferecer seja por nós alcançado, sem deixar
sempre de abrir uma nova porta, provocar uma
outra resposta, testar-nos enquanto estivermos
vivos e dispostos a voltar a ele. É isto que torna
um clássico o “meu” clássico. É isso que elevam
livros a clássicos. Nunca fico a eles indiferentes,
porque servem para nos definir, ampliando o nosso
conhecimento acerca de nós mesmos, das outras
pessoas e das coisas do mundo.
Texto Adaptado de: OLIVEIRA, L. Por que ler os clássicos?
Revisitando uma “velha” pergunta. In: CARVALHO, M. A. F;
CARVALHO- BELINI, R. G. Caminhos da Leitura: percursos
colaborativos. Curitiba: Appris, 2002.