Texto CB3A1
Mil anos atrás, a universidade substituiu o convento no
papel de gerador do saber de nível superior. Em um tempo em
que a educação básica era restrita a poucas pessoas, os conventos
serviam para formar adultos interessados em aprofundar o
conhecimento em torno dos temas e dogmas da Igreja.
A ampliação da educação também fez aumentar o número
dos que desejavam seguir estudando na idade adulta, mas não
queriam ser monges isolados em conventos. O mundo das ideias
não pôde esperar, e as universidades surgiram em nome do saber
livre, criativo, sem apego a dogmas ou a métodos.
As universidades são a resposta pós-conventos, ante as
novas exigências. Ao longo de mil anos, essa nova instituição
sobreviveu ajustando-se às mudanças e exigências do mundo.
Mudanças nos métodos de ensino e pesquisa, nos conteúdos da
vida intelectual e exigências de novos saberes para entender e
mudar o mundo. A universidade evoluiu científica e
tecnicamente, departamentalizada, ajustada ao mercado, sempre
em movimento, conforme o momento. Mas ela pouco mudou
naquelas características básicas surgidas em Bolonha, Paris,
Oxford no começo do segundo milênio.
Para o terceiro milênio, ela deverá mudar, não apenas se
ajustando, mas se transformando radicalmente, para atender à
nova realidade técnica e às novas exigências que o mundo impõe
às ideias.
O desafio da universidade para as próximas décadas é
maior do que mudar, é evoluir. Maior do que reformar, é
inventar. Mais do que se ajustar aos tempos atuais, ela precisa
inventar uma instituição nova, tão diferente da atual quanto ela
foi dos conventos nos tempos da sua origem.
Cristovam Buarque. Universidade e democracia. In: Revista USP,
São Paulo, n.º 78, p. 68-77, jun.-ago./2008 (com adaptações).